Já não escrevo como outrora, ainda que na verdade eu já tivesse mudado muito antes de resolver publicar um livro. E quando já não cabia mais em mim, como costumam fazer os filhos mais sapecas, escapuliu como eu menos esperava e se materializou em tom de festa. Da escrita, me lembro pouco. Tampouco das histórias que ali inventei, ou que apenas contei. As minúsculas já não fazem tanto sentido e todas as Ninas, Eulálias e Emílias simplesmente fugiram ao que havia de mais puro à época das leituras ininterruptas de Zambra. A palavra envelheceu, e, embora estivesse em estado iminente de partida, não morreu. As ideias evoluíram e a vida, como havia de ser, apenas deu mais um passo rumo ao desconhecido. E é nesse lugar incômodo onde me encontro por agora, sensivelmente perdido à espera de quê. E é do tanto esperar que o corpo se move na ansiedade da busca, porque era preciso, evidentemente, provocar um reencontro qualquer.
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
sábado, 7 de março de 2015
sábado, 24 de janeiro de 2015
sintonia do breu
regar as palavras,
temperar a escrita.
dispor as cadeiras a prosearem entre si.
vermelho, amarelo.
reinam e dão vida à sala vazia na calada da noite.
silêncio, a maior parte do tempo era assim.
orquestra do meu corpo.
plantas assobiam,
gotas batucam no telhado.
é tempo de renascer:
a palavra ainda não morreu.
temperar a escrita.
dispor as cadeiras a prosearem entre si.
vermelho, amarelo.
reinam e dão vida à sala vazia na calada da noite.
silêncio, a maior parte do tempo era assim.
orquestra do meu corpo.
plantas assobiam,
gotas batucam no telhado.
é tempo de renascer:
a palavra ainda não morreu.
sábado, 20 de dezembro de 2014
fragmentos de um conto mais ou menos entregue
“...entrei no avião ainda em prantos e
lembrando do exato momento em que Luísa piscou-me sem querer e fez nos encontrarmos,
mesmo desatentos, e nos embriagamos em pequenos movimentos esquecidos no tempo,
a sós, quase preparados para um pouco mais do inesperado encontro. eu ficaria
longe por alguns meses, desta vez, e sabia que devia tentar esquecê-la, mas ela me permitia ser a melhor versão de mim mesmo e
talvez fosse impossível, pois eu a amava tanto quanto ela amava tentar tocar o
impossível com Magritte ou admirar-se com a primavera envolvente de Grant Wood.”
fumo tanto e, ainda assim, me falta um trago
tenho
escrito pouco, em meus dias. tenho vivido pouco esses meus dias. alguns, bons. outros,
nem tanto. benza deus, alguns me restam. e a eles me apego para seguir. quando tomo um café com broa, por vezes, os meus olhos brilham. o corpo treme, um calor suave domina os pulmões, projeto-me no imediato instante de ontem, que se transforma a cada dia em amanhã bem vivo. trabalho
muito, conquisto um espaço que já não era meu. mas, quem era eu? ainda me busco
entre os céus azuis de outrora, as palavras perdidas no tempo, a parede
amarela, o quadro vermelho, os desejos interrompidos, o conto que não pôde lhe
ser entregue, a vontade abrupta do toque. tenho escrito pouco, mas pensado
muito. e às vezes dói o tanto que penso e brigo comigo e não consigo traduzir
em palavras. te decifrar era preciso. e logo eu, que um dia me achei tão bom
nisso, vejo-me outra vez entregue à loucura. estou preso em mim e fugindo do
único direito que permitiram em vida. mas ainda é tempo de lhe salvar e, assim, me salvarei também.
eu quero não morrer
tem vezes que não escrevo o que penso
o que quero, tanto
o não dizer:
G-R-I-T-A!!!
tem vezes que prefiro morrer, mesmo aos poucos
dilacerado
é hora de me salvar de mim: o ano novo já vem
o que quero, tanto
o não dizer:
G-R-I-T-A!!!
tem vezes que prefiro morrer, mesmo aos poucos
dilacerado
é hora de me salvar de mim: o ano novo já vem
domingo, 10 de agosto de 2014
a festa do adeus
há alguns anos, decidi mudar a minha vida. pedi demissão de um emprego bom, realizei projetos que me deram mais tesão, fiz novos amigos, me desfiz de outros, decidi viajar. enfiei alguns sonhos na mala e vim. nessa viagem, já dei banho em elefante, ensinei inglês para monges no Laos, ganhei algumas tatuagens, aprendi culinária balinesa, usei sarong e joguei xadrez em indonésio, dormi sob uma coberta de estrelas no deserto, fui passado para trás no Camboja, peguei protestos em Istambul e um golpe militar na Tailândia, passei um mês numa ilha paradisíaca depois de um acidente quase horrível de moto. tento me comunicar em um inglês mais ou menos y hablo un portuñol terrível, falo algumas palavras em tailandês, khmer, laossiano, balinês, híndi e até arranho um tim-tim em sueco, alemão ou francês.
no começo, eu talvez pensasse apenas em largar tudo por um tempo, romper com o primeiro ciclo de vida. lá se vão onze meses, quatorze países. e, quando eu comecei a ficar um pouco cansado de templos, museus e lugares, quando já não dava mais conta de apenas contemplar, decidi estacionar na Índia. e foi ali em Rishikesh, logo ali na beira do Ganges, que conheci pessoas fundamentais à minha caminhada e acabei me conhecendo um pouco mais, também. lembrei que tinha um sonho guardado no cantinho de alguma gaveta esquecida na estrada, tirei o rascunho da bolsa e vomitei. dispensei as maiúsculas e escrevi quase todos os contos em primeira pessoa. eu disse adeus.
e agora que venha a festa, um novo ciclo ou o que tiver de vir. é o fim do começo ou o começo do fim, é o encerramento de um processo duro e doce, de uma entrega vermelha ou amarela demais pro meu gosto, a quarta linha no meu braço esquerdo. é o fim de uma etapa ou de outra vida, é passagem e é também uma vinda, como diria o bom mestre Cartola. é o que me faz seguir.
são onze textos para serem lidos em poucas horas. são onze passagens sobre a urgência dos relacionamentos do nosso tempo. são onze vidas ou onze mortes. são onze festas ou onze adeus. são onze motivos estúpidos para serem jogados ao fundo do armário. são onze narrativas inúteis que falam muito de mim, de você, de todos nós. são onze contos que querem dizer o amor à sua maneira, mas que também não dizem nada.
lançar essa "festa do adeus" me deixa muito feliz. e não apenas pelo livro em si, mas porque aqui inicio também a lenta caminhada de volta pra casa. da viagem, vem outro livro depois, das histórias que estou vivendo por aqui. volto para casa em breve, e longe de estar pleno ou esnobe, mas devorado por uma ansiedade em entender o que se apresenta depois do depois do adeus.
domingo, 8 de dezembro de 2013
23 quase bobagens ou constatações clichês sobre os meus primeiros 70 dias de viagem
- Andar de tuk-tuk em Londres pode ser uma
experiência incrível
- Os chineses roncam muito, os ingleses roncam
muito, os americanos bêbados roncam muito, todos os homens bêbados roncam
muito
- Algumas mulheres podem ser piores companheiras
de quarto do que os americanos bêbados, mesmo quando roncam
- Os suíços tomam banho muito rápido
- Os chineses quase não tomam
- Dormir em euro é caro, sem dúvida, mas é mais barato do que dormir com americanos bêbados que roncam e chineses que não tomam banho
- Sair pelado do banheiro, dormir pelado, fazer qualquer coisa pelado desde que você esteja pelado, enfim, pode ser uma coisa muito importante
- Na Itália, é um garçom para pedir comida, um
para pedir bebida e um outro para pedir a conta
- Na França, é praticamente impossível comer e
beber no mesmo lugar
- Na Holanda, você come, bebe, fuma, pede a conta, bebe, come, come, bebe mais um pouco, pede a conta, perde a conta, a conta, o rumo, tá tudo certo
- Sempre vai haver um indiano tentando te vender
flores ou objetos que voam, em qualquer lugar que seja
- Brasileiros não gostam muito de brasileiros,
até a primeira cerveja
- A maioria dos americanos e dos alemães não acha, eles
têm certeza que são os melhores do mundo
- Existem americanos legais, muitos!, principalmente aqueles que vivem em Nova York, trabalham com cinema ou fotografia e morem no Brooklyn
- Existem alemães legais, desde que vivam em Berlim, são os únicos que consegui conversar
- Os espanhóis jogam futebol, os italianos adoram
futebol, os franceses respiram futebol, os alemães vivem futebol, os
ingleses amam futebol, ninguém gosta do Neymar
- Todos deviam dirigir na Toscana, ao menos uma
vez na vida
- Todos adoram e se surpreendem com a minha viagem, mas quase ninguém tem tempo para conversar porque sempre têm
que partir no dia seguinte
- Tem muitos estudantes brasileiros no “Ciência
sem Fronteiras”, com bolsa do Governo Federal, mas a maioria deles é contra
a atual política de Estado, contra o bolsa-família, a favor da Copa do
Mundo e acha a Europa mais limpinha que o Brasil
- Na Itália, tem muitas igrejas e monumentos, mas
eles gostam mesmo é de sorvete
- Em Berlim, dizem que tem muita droga todos os
dias, não pára, mas droga mesmo é não ter Berlim todos os dias por perto
- Sentar num buteco para tomar cerveja de chinelo, bermuda e com os melhores amigos, sobretudo em Santa Tereza, ainda é o melhor programa do mundo
- Deixar-se perder no caminho ao menos uma vez, em qualquer situação que seja, não tem preço: você pode acabar encontrando o dia mais legal da sua vida
e antes que você discorde, proteste ou queira jogar pedra em mim, lembre-se que esta é a minha visão, é a minha viagem e este é o meu blog =)
terça-feira, 5 de novembro de 2013
um silêncio bom
algumas coisas podem ser escritas no todo, outras
tantas não. palavras que entalam no peito viram poesia leve. em Verona, a minha
primeira cidade na velha bota, a comunicação é até fácil. mas há
um silêncio enorme e gritante em algum lugar do meu corpo que me pede mais
calmo e sereno do que em outros pontos da caminhada. os cheiros e os sabores me parecem muito familiares, não sei, talvez as cores ou o tempo bom, algo que
faça com que a solidão não me agrida tanto. ao menos não como antes. os lápis e
os papeis que me acompanham todos os dias, aqui parecem ter uma função mais
clara. servem-me a observar atento a cidade pacata acontecendo. há muitos turistas por todos os cantos, em supremacia chinesa, e outros tantos casais em
busca de uma benção qualquer de Julieta, que somente existiu em texto. mas é estranho, muito estranho, porque Julieta parece estar em toda a cidade ao mesmo tempo, nas
varandas floridas, nos cafés tumultuados e nos bancos vazios das praças, sensação que torna encanto o meu silêncio
rompido. os casais apaixonados não me deixam triste, tampouco os sanfoneiros
sorridentes de todas as esquinas ou a mensagem "the taste of love", onipresente nas banquinhas de jornal e nos lambe-lambes vizinhos ao hotel. ao contrário. fazem florescer o que talvez
houvesse de mais bonito até agora e que eu ainda estava por encontrar. um
jeito estranho de ser, mais próprio e menos sagaz, que sustente a ideia de continuar, em qualquer que seja o caminho.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
amanhã faz um mês que estou viajando...
amanhã faz um mês que estou viajando. saí do Brasil
no dia 24 de setembro e já passei por Londres, Paris, Rennes, Amsterdã e agora
estou amando a vida em Berlim, ou ao menos me desconectando um pouco dela, porque
isso também é amor. viajar sozinho é um tanto quanto maluco. é bom e ruim, é
quente e frio, é de tudo um pouco ao mesmo tempo e sempre um dia após o outro. já
viajei sozinho antes, mas não com tantos desafios quanto agora. desafios a que
me propus, naturalmente, porque seria até relativamente fácil se fosse uma
viagem exclusivamente turística dessas onde a gente se vira em redes de fast-food,
visita apenas as principais atrações das cidades e se carrega de um
monte de compras e fotos para depois mostrar para os amigos.
amanhã faz um mês que estou viajando e, nessa viagem,
até pretendo contar algo para os meus amigos. mas, talvez queira escolher algo sobre os cheiros, os
sabores, os instantes, o acaso, o inesperado, algo sobre os encontros no
meio da rua ou em uma esquina qualquer. porque a gente se vira, se conversa, desconversa e se
estrepa. já lavei roupas em algumas línguas, vou tentar cortar cabelo dia desses, já encontrei novos amigos, fiz
outros que duraram apenas um dia, descobri amigos de amigos em Amsterdã e até
encontrei ex-colega de trabalho nas ruas de Berlim. tem sido tudo lindo e
maravilhoso, a não ser a solidão que às vezes me assombra. e é justo ela a que vim
enfrentar, tentar me ser um pouco mais, descobrir onde estou ou talvez aonde eu tenha de ir ainda em algum momento dessa caminhada. o livro que estava
escrevendo está paralisado, por hora, mas outro novo e mais potente vem que surge e me
toma fugaz. e então eu ando, ando, ando. e depois escrevo, escrevo, escrevo. deliro
com o inesperado que surge ao redor, choro com histórias tristes e outros
momentos integrantes dessa quase história.
amanhã faz um mês que estou viajando e não tenho
menor ideia de quanto isso vai durar. ainda estou me procurando nas esquinas,
nos gringos que olham torto na rua ou às vezes nem olham, na descoberta sobre
como sobreviver em outras línguas e me virar em um inglês pouco prático que
tenho desenvolvido. daqui, tenho mais saudades de momentos do que de pessoas. saudades
de jogar conversa fora em boteco, de poder desabafar em português, de conseguir
escolher precisamente aquilo que se vai comer, de saber mais sobre os caminhos, de coisas como jogar xadrez em tabuleiro ou compartilhar alguns sonhos inalcançáveis. tive
saudades estranhas nesta noite, que não caberiam ao texto, e por isso resolvi
escrever. daqui, vou indo ao meu encontro, como havia de ser, mas ainda um
pouco distante de algo palpável a que possa alcançar. e ei de? sabe-se lá, talvez. sou
apenas uma formiguinha no mundo e a gente não devia se dar tanta importância
assim. o desapego também é moral.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
o primeiro dia de viagem
na
verdade, tudo começou há algum tempo. acho que foi há uns dois anos, um pouco menos ou mais. no fundo, acho que começou quando eu me comecei, quando me vim
ao mundo. todos nascem para o mundo, afinal, como hoje me arrisco capaz de afirmar. essa
viagem começou no dia 23 de maio de 2011. era aniversário da minha avó, os seus
80, e não, a escolha não foi por celebração à ela, com a licença permitida. decidi me celebrar
naquela data. alguns vêm e vão, outros vêm e ficam, mas depois se vão, e quem
fica mesmo, no final das contas, é a gente mesmo e olhe lá. redundante fosse, ou
clichê, se não fosse assim tão hoje, real em vida, presente instante.
essa
viagem começou quando eu a desejei, quando eu comecei a planejar algum dinheiro
para que pudesse me confortar à escolha, começou no dia em que me separei, quando
perdi alguns quilos, algumas roupas e alguns amigos, quando me distanciei dos
meus melhores amigos quando estava apaixonado, quando estive em depressão, quando
tomei coragem e me desliguei do emprego de salário bom ou quando reclinei diante
de novas propostas deliciosas e tentadoras, começou no dia em que pisei pela
primeira vez em Paris e chorei sozinho, quando fui à Nova York e não queria
voltar, em todas as vezes que fui à São Paulo e me sentia vivo como aquele
poema do Leminsky, quando pisei na Lapa e agradeci de joelhos por estar
voltando pra casa, começou nas vezes em que estive na Ilha de Boipeba e na
primeira vez que pisei na Serra do Cipó, mesmo há dez anos a algumas horinhas
dela, tão bela e logo ali. começou quando fui à Praia da Estação pela primeira
vez, quando o carnaval voltou, quando voltei à minha cidade natal e não podia
mais chamá-la de minha, quando recebi a notícia que um amigo morava em Londres
e outro em Lisboa, que outro esteve de licença da vida por tempo determinado,
que um outro iria se casar em breve, que alguns estavam grávidos, quando
comecei a namorar, quando em todas as vezes que fui, fui, fui, mas que depois
me vim.
hoje
o texto não é literário, pois o processo em si já é poesia pura. vou viajar o
mundo, ou ao menos uma parte dele. prometi-me que não houvesse roteiros fixos, mas
apenas desejos e motivações, que não houvesse produção ou reservas, mas apenas
uma passagem de ida, que houvesse apenas uma mochila nas costas, alguns
cigarros, muitos papeis e canetas, uma câmera fotográfica, algumas poucas roupas,
um protetor solar, um repelente, uma toalha de microfibra que cabe no bolso, descobri
outro dia, um chapéu e uma ceroula para que não morra de frio, meia dúzia de
badulaques quaisquer e alguns cartões-postais não sei de onde para enviar com
um sopro de vida aos meus queridos mais próximos. vou sem muitas promessas, sem muitos
desejos aparentes, vou para encerrar algum tipo de gestalt, como uma amiga
frisou outro dia, e me encontrar lá na frente, quem sabe. ando precisado de mim.
ando precisado de ir. e acho até que já escrevi de tudo um pouco sobre isso,
mas nada que se materializasse como esse agora me permite, então.
a
viagem recomeçou ontem, quando tomei todas as vacinas obrigatórias. recomeçou
na semana passada, quando decidi que iria visitar a minha prima-irmã na França
e só de lá decidir o resto. recomeçou há pouco mais de um mês com as
manifestações, com a ocupação da câmara, com as estranhezas de sempre do poder
público e com a retirada de campo à força do tesão com algumas poucas
coisas que ainda me faziam muito bem ou pelo menos me enganavam e me
alimentavam. recomeçou quando hoje, pela manhã, acordei e tinha chegado uma
revista baranguinha que insisto em assinar, mas que ao menos uma vez me fez
muito sentido ao trazer em sua capa uma terra que nutro um desejo muito grande
de visitar sob a chancela “seja feliz com 50 dólares por dia”. recomeçou quando
uma amiga me mandou o link de um retiro budista, quando uma menina próxima
morreu de tiro, com o debate da velha mídia com alguns dos meus pares, quando
liguei para a minha mãe em uma pré-despedida, quando contei à namorada e aos
amigos mais próximos. recomeçou outro dia, pois já não estou mais aqui, mesmo
que doa, e quando recebi a cotação da passagem apenas de ida e ela coube no meu
bolso. e os meus sonhos também.
terça-feira, 2 de julho de 2013
embora sim
embora,
sim
não
insurge
a lua?
talvez
não
era abismo,
tampouco
fundo
era
o teu peito,
à
beira-mar
e
podes, sim
disse
outro dia
abri-me
pois,
nós
dois
o
amor, então
o
ar preenche
à
revelia,
ou
à razão
queira ou possas
não poupe aos dois,
faça-te
sim,
ou então depois
em
dose certa,
em posse asserta
em peito esmero,
em flor sincera
os
olhos escusos,
não
outrossim,
livrai
o não!
permita-te em
tom
em
ecos,
nas
mãos
uns
versos não
vãos,
permita-te,
enfim
em mim, assim
e
vem além.
e
vem agora.
depois também.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
delicadeza
sussurrava o
vento coincidente.
silenciosos e
em química,
encontramo-nos
neste setembro.
é primavera!
e houve o
toque.
a pele.
houve o
impávido e suave acaso à porta,
o inesperado
presente.
instantes.
o inevitável
desejo à espreita:
revelação.
sentido antigo
que esvai, sinto.
sentido antigo
que esvai, vai...
existem flores
do lado de lá,
talvez existam
de cá também.
eu em busca de
mim e da leveza impalpável,
ao encontro do
meu corpo.
tu em busca de
ti e da tua verdadeira face,
dos teus
verdadeiros gestos,
do teu mais
sincero e estúpido gozo.
límpido!
quero-te em
pitadas. quero-te limpa. quero-te tua.
queira-me como
podes, ou como queres, ou como podes querer-me.
nu.
queiramo-nos
como pudermos ser:
leves.
não há
urgência. mas há sinais.
o corpo fala,
diz muito.
tem vezes
grita.
urra!
_________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!
queira-me em
silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa
muito,
não me prometa
nada,
mas lhe
prometo vida.
apenas venha fresta e olha-me nos olhos,
beije-me o teu beijo vermelho, a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas, então,
como tocam o céu as andorinhas,
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma,
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso:
livres.
sinta-se no instante, deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o
tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em
teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu
beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca
vermelha,
os teus lindos
lábios vermelhos.
despeça-se
viva e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás
por lá também.
sintamos os
sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do
lado de cá,
uma rosa do
lado de lá:
papeis em
branco a preencher.
deixe impor-se
tácito o tempo
no tempo, no
tempo,
relógio-tempo.
e seja como
for mesmo no breu do presente:
__________,
nova!
escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca
vermelha, o teu ventre vermelho.
escorra-me
toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!,
goza-me!,
goza-me todo!
todo!
delicadeza!
limpa-te e
goza-me o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a
pressa de sermos,
ou de tocarmos
as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos
sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos.
chamemo-nos
suave acaso, ao acaso, e sejamos então.
e enfim.
a urgência
mata.
mata.
mata.
goza-me
inteiro,
e por agora.
______________!
dois pontos:
---
Poesia contemplada pelo Concurso Nacional Novos Poetas (Prêmio Sarau Brasil 2013).
A versão original já havia sido publicada neste blog, no final de 2012.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
quinta-feira, 25 de abril de 2013
o tempo de sentir
o
tempo de sentir o meu corpo o teu corpo o teu beijo no meu é agora e agora
estamos juntos e o nosso para sempre e para o todo hoje e sempre é portanto
agora também e nesse agora nosso para sempre far-te-ei cheia de beijos carinhos
respiros suspiros chamegos olhares e que a recíproca seja verdadeira porque te
ter ao meu lado com a tua mão sobre a minha em qualquer hora do dia que
conseguimos nos propor é algo que não havia planejado e se não fosse assim não
havia então de ser tão bonito poético gostoso o nosso gozo junto ao encontro dos
teus olhos e o teu toque singelo à minha nuca arranhando-me estreme o teu beijo
doce grudado ao meu mas tinha de ser e é
quarta-feira, 24 de abril de 2013
fragmentos de um quase conto
...
não viam-se há anos, mas a mulher movimentava-se sem repúdios ao encontro do
rapaz como se nada lhes tivesse ocorrido e ele, um pouco em desencontro à sua
fala mansa ao gosto amargo do espumante, recolhia-se inerte à cadeira
desconfortável que obrigara a assentar-se ao lado de sua mãe. não acreditava, ou
simplesmente não permitia-se acreditar à saudade dilacerada em seu
guarda-roupa, mas ensaiava dizer o amor à sua maneira tímida de encarar as
tolices do tempo, mesmo inábil às pernas que já não se moviam, porque afinal a
admirava tanto quanto os belos poemas do Leminski que sempre lia aos alunos nas
incansáveis tardes de estudo.
domingo, 31 de março de 2013
o que havia de lhe dizer
andavas
a procurar o amor e acabei por encontrá-lo onde menos podia esperar por agora.
estava guardadinho bem ali, junto ao peito. e ei de entregar-lhe, então, todas
as palavras que não puderam de ser ditas antes. e hão de ser genuinamente
belas. e sinceras. e todas tuas.
a estranha sala de espera
hoje eu acordei um
pouco surdo por não entender um pouco cego por não enxergar um milímetro sequer
adiante e um pouco maldito por não conseguir lembrar-me da noite passada eu
acordei com o livro da Clarice em cima do peito eu não sonhei tampouco recordo
como ou quando peguei no sono enquanto assistia l’amour e talvez por isso eu estivesse
sentindo-me do avesso a observar as paredes vermelhas do quarto o lençol de
muitos fios ainda amassado em ausência e as flores esquecidas no andar de
baixo tomei todos os meus remédios entrei no banho estava frio muito frio dilacerava-me
a ventarola que jorrava o vento estúpido usei todos os cremes esfoliantes à
espera de algo escaldante subiram-se vapores quentes que deixavam-me excitado
ao meu próprio toque mas desisti porque a saudade bateu e
fui correndo para o telefone assentei-me ao sofá florido da sala acendi um cigarro observando
os quadros falsos rachados na parede em silêncio zelado não atendeu achei estranho que isto pudesse
ocorrer-me ao domingo vão não havia o que fazer sentia-me grogue e sem forças havia algo de muito estapafúrdio que me convidava a
desistir da palavra doce das sílabas não entregues e então despedi-me de mim mesmo já era quase meio-dia eu queria vazar-me inóspito em minhas próprias mãos mas
eu não tinha governo algum sobre isto escolhi o tênis vermelho surrado e uma blusa
amarela descolada mas acho que no fundo eu iria apenas
ao outro lado da rua e talvez voltasse com um sorriso qualquer no rosto a saudade batia forte e talvez
insegura em pequenas lágrimas que enchiam-me os olhos e depois de enfrentá-la enfiei
todas as angústias e as velhas manias na bolsa de couro velho acendi outro
cigarro de filtro vermelho à procura do então e quando prestes a sair o telefone tocou
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
outro sonho
nesta
noite, fui eu quem sonhou contigo. estávamos num show do Caetano, mas o show
não era do Caetano. não sei bem qual era a cidade. acho que talvez o
Rio, porque a gente adora o Rio, porque a gente ainda vai junto pro Rio. parecia-me a Bethânia, ou alguém muito parecido
com a Bethânia?, e a música estava absurdamente alta. muito alta!. a sós, fugimos para comer um creme à beira-mar. estranhamente verde, muito embora delicioso. era tipo de abacate. e eu sempre soube que você não gostava de abacate, e por isso era estranho também ter de tentar compreendê-la, mas a gente meio que se lambuzou muito à tigela encontrada e depois
entrou na água. olhava-te aos olhos, nus e belos como a margarida ao terreiro de mãe pela manhã, e você aos meus. a praia estava vazia ao
breu da quase madrugada e não havia muitas ondas de modo que os corpos já não
estranhos pudessem se tocar lentamente. tocava-me o sexo, tocava-te a alma. ardia-nos a urgência do infalível tato, do inevitável sentido à espreita. pele límpida em desejo vivo. éramos-nos como se jamais pudéssemos ter sido antes. e depois voltamos ao show, encharcados e
demasiadamente leves vestidos em branco-neve como a parede do teu quarto, e
dessa vez era você quem estava no palco no lugar da Bethânia, bonita, muito bonita, e estava também ao meu lado a dar-me
suave as mãos macias a te vermos cantar. havia silêncio à volta, sim, mesmo
impossível, e também um grito inerte ao peito que pedia-se livre. não me lembro muito
do que veio depois, permita-me em licença, alguns sonhos costumam ter disso. mas sei que consegui entregar-te todas as
flores no caminho de volta ao camarim. não eram muitas, talvez vermelhas, mas eram tuas. tuas!. e você nesta hora, como
se desviando o olhar um pouco sem jeito em meio à multidão a mirar-se destemida aos meus lábios à espera do beijo que não pôde de ser entregue antes do sonho,
bom, você apenas sorriu...
domingo, 6 de janeiro de 2013
dar-te-ei todas elas, enfim...
e
então que não já há mais a folga da ausência encontrada ao campo. e há de haver
algum dia?. das vísceras?. e assim torno-me à rotina estreme ao domingo vão de
céu azul e poucas nuvens à janela ao canto do quarto vazio. os tragos
acabaram-se, os muitos que me acompanhavam à ausência interrompida, e as cartas
em despedida no estranho jogo de palavras soltas ao ano que esvai não puderam
de lhe ser entregues porque não havia sinal. e havia de ter?. não recebi as
respostas, também. e havia algo ainda de ser dito?. encontrei-as inertes junto
ao corpo vazio. todas elas. estavam lá bem ao peito!. há um livro a entregar-te
também à espera no tempo, ao ano que corre, ao conto que conto. e assim
dar-te-ei novamente um dia todas as palavras, então. e hão de ser tuas?. torno-me
hoje ao silêncio em rotina, sim!, não chora mais o céu as lágrimas de outrora.
e entregar-te-ei junto aos sonhos, enfim, todas as flores no jardim do fundo à
tua espera. e é-se então uma despedida?.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
pedaço de papel
mudei-me,
mudou-se, mudamos juntos. não somos mais o que éramos há tão pouco antes desse
verão. muito embora impreciso, esse estranho desejo anunciado no
último encontro às cegas na sala antiga de parede vermelha cutuca-me tão belo e
agressivo em algum lugar ainda intocável do corpo vazio que não consigo sequer
me mover. não encontro-o ou não consigo ainda tocá-lo, mas sinto-o com tanta
força. sinto-o tão próximo com muita e tanta
força querendo-me invariavelmente seu e ligeiramente entregue à possibilidade
do reencontro que ouso-me arriscar capaz de aceitar-me mais pulsante e
estupidamente forte à ideia dos delicados e estremes toques até o gozo estúpido
que sequer pudemos nos permitir nesse último encontro.
e onde
vai dar?, se há de haver reencontro?, se daqui a pouco ou no próximo verão?. pouco
importa!, nada importa!, nada ou pouco importa em aceitarmos mesmo
tardia a possibilidade do reencontro a gozarmo-nos a alma intacta para que
possamos enfim sugar-nos das melindras entranhas a urgência desse hoje
impreciso. pois o que fica dessa viagem interrompida, desse conto encontrado em
desejo estranho no corpo vazio, é que os dias viraram-se do avesso a
imaginar-me pintando-te a aquarela nos seios macios com as novas flores e os
novos sabores, e com as novas cores servidas com o gosto límpido das tuas puras verdades
desprendidas da vidraça estilhaçada além de mim. e mesmo que não houvesse
reencontro por agora, e há de haver algum dia?, guardar-te-ei junto ao peito inerte todas as sílabas sequer
pronunciadas e que jamais caberiam-me ao singelo pedaço de papel que dispenso-te hoje junto ao ano que esvai porque amo-te muito mesmo sem saber amar.
Assinar:
Postagens (Atom)


