domingo, 10 de julho de 2011

Para uns, para outros

Amigo, estou contigo.
Pra você, sou companhia, simpatia e alegria.
Sou sereno e sou pleno.
Dou meus braços, sou ouvidos, me disponho.
Eu até sonho.

Para outros, eu sou médio, sou freguês, sou solução.
Para uns, sou perdição. Para outros, digo não.
Para uns, eu sou a festa. Para outros, uma fresta.
Para uns, ignorância. Para outros, sou infância.
Eu sou a terra, o fogo e o ar.
Sou paixão e sei calar.

Sou prisioneiro de mim mesmo, os dois lados da moeda.
Para uns, eu sou a língua. Para outros, uma míngua.
Para uns, eu sou deserto. Pros amigos, sempre perto.
Aberto.

Para uns, eu sou Leozito. Para outros, nem apito.
Para uns, eu sou Leozinho. Para outros, sou carinho.
Pra Dindinha, sou querido. Pra vovó, eu sou Leléo.
Para a Duda, sou Beltrix. Pro Chitão, eu sou Beltrônico.
Pra Batatinha, eu sou o Belt. Pro André, sou Leonardo.
Para o Lucas, sou careca. Para o Fred, eu sou Jones.
Pro Diego, sou Beltrones. Pro Matias, é Léo Jones.
Pra minha mãe, eu sou Leozoca. Pro meu pai, eu sou filhote.
Para a Ziza, sou só Beltris. Pro Miguel, eu sou Leozão.
Sou Da Vinci pro Biel. Pra maioria, sou só Léo.
Pro Geraldinho, sou patrão. Pro Alan, Be-Be-Beltrão.

Para uns, eu sou o caos. Para outros, sou o fim.
Para alguns, estou aqui. Pra Carol, eu sou Beltim.
Já fui pequeno, lindo, amor. Mas, pra mim, sou só assim:
Livre, leve e solto.

Queria ser um marinheiro, para poder navegar.
Queria ser um bombeiro, para poder salvar.
Queria ser cozinheiro, para saborear.
Um carro, para buzinar. Um pandeiro, para sambar.
Queria ser carteiro, para lhe entregar.
Ser bicicleta, para andar.
Queria ser câmera, para gravar.
Um lampião, para iluminar.
Queria ser microfone, para cantar.
Um poeta, para aliviar.
Ou simplesmente um quadro, para emocionar.
Mas, para uns eu sou metade. E para outros, saudade.


Multifacetas fazem parte de mim. Minha mente é ebulição.
Sou carona, vou à lona.
Sou o meu eu, também sou seu.
Sou só meu, de mais ninguém.
Minha angústia me cai bem.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hoje

Hoje eu quero um reencontro.
As pupilas dilatadas, a ressaca.
A louca vontade de dirigir, os óculos escuros.
As buzinas incessantes.
A sensação de não dormir.

Hoje eu quero um reencontro com a luminosidade e a poesia.
A métrica carnal, minha tormenta, o meio-dia.
A blusa azul, o meu chapéu, a sala fria.
Um reencontro com a minha boemia.
Eu quero ver e quero crer.

Hoje eu quero um reencontro triunfante.
Gente gritando. Liberdade, ainda distante.
Eu quero um sol que brilhe e a chuva pra dançar.
Eu quero ver os sonhos. Vontade de vingar.
Mesmo ácido, pois bem, o tempo passa.
A redenção já vem.

Hoje eu quero um reencontro com a magia.
A rua está vazia e mesmo assim eu vou.
Não vou bater a porta.
Eu quero a madrugada, ver a noite enluarada.
Eu quero atenção. Mas bem, agora não.
Ainda vou buscar, um dia alcançar.
Não há mistério algum, só vou.

Hoje eu quero um reencontro com o passado.
Não sou mais tão jovem, sou o meio.
Nostalgia me permeia.
Não quero mais chorar, o leite derramar.
Alguns sintomas, os cabelos brancos e a careca prenunciam.
É velhice, o prelúdio dos tempos.
Aqui há paz tardia.

Hoje eu quero um reencontro com meu corpo.
Ele pede, mas já doem os joelhos. É tanto andar.
Os olhos lacrimejam de tanto olhar e, o umbigo, um tanto frio.
Os pés descalços só deslizam no vazio.

Hoje eu quero um reencontro só comigo.
Desfigurado e desconfigurado.
A minha cafonice confessa, ser paisagem é pesar.
Deixa estar.
Estou cuspido, escarrado. Mal criado.
Um réquiem de mim mesmo.
Refém.

Hoje eu quero um reencontro sem encontro.
Sem melancolia, sofrimento. Sem angústia.
Isto, claro, me frustra.
Mas não, não dá para voltar.
Vagar. Devagar. Reencontrar.
Sem parar.


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sóbrio e só

Ando meio desligado. Meio desatualizado. 
Meio fora de órbita. Meio fora de si.
Há tempos, eu sou Chico. Só Chico. 
Em hora boa, até cai um Vinícius.
Em hora brega, Roupa Nova.
Em hora triste, cai Cartola.
Mas, indubitavelmente (e insistentemente), Chico.


E, como é hora de me renovar e me reconectar, fui procurar.
Essa semana, conheci essa parada.
Sei lá sei gostei tanto assim, mas não tenho dúvida: 
Não mudo nada!
A casa caiu

Ou me mudo
Ou me caso
Ou me acabo em álcool

Algo que faça sentido
Algo que me traga alívio
Estou tão sóbrio e só

Meu mundo acabou
Ou me mato
Ou me trato
Ou me acabo em álcool

Algo que faça sentido
Algo que me traga alívio

Estou tão sóbrio e só
Estou tão sóbrio e só
Estou tão sóbrio e só
Estou tão só

Com você por perto
Ou me calo
Ou te bato
Ou me acabo em álcool

Algo que faça sentido
Algo que me traga alívio
Estou tão sóbrio e só

A casa caiu
Ou me mudo
Ou me caso
Ou me acabo em álcool

Algo que faça sentido
Algo que me traga alívio

Estou tão sóbrio e só
Estou tão sóbrio e só
Estou tão sóbrio e só
Estou tão só

Cérebro Eletrônico (Música: Sóbrio e só / CD: Deus e o Diabo no Liqüidificador)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Timidez

Às vezes, tenho absoluta convicção de que sou tímido.
É, sou tímido.
Afinal, a timidez não está simplesmente no fato de ser inibido.

Crio blog, falo em público, dou aula.
Me declaro, mas sou tímido. E que mal há nisso?
A timidez está em tudo. Nos gestos, nos atos e até na falta deles.

É. Sou chefe, coordeno, sou amigo e até inimigo.
Mas me calo.
E se quem cala consente, minha palavra é o silêncio.

Às vezes, até a mesa de bar me trava.
Uma reunião me cala, um comentário indigesto.
Flagra.

Dos tímidos, talvez não seja o mais intenso.
Disfarço bem. Garanto.
Mas que existe uma timidez oculta e aguçada dentro de mim e que às vezes aflora...
Ah, isso existe!

Se estou feliz, quero gritar.
Se está legal, quero falar.
Se estou na boa, quero amar.
Se estou por cima, faço calar.
Se estou voraz, tanto faz.
Se estou amigo, pego a mão.
Se estou bem, sei dizer não.

Mas, a timidez me cala.
E aí, fico na vala.

Meus sentimentos, às vezes invento.
Meu posicionamento, às vezes é vento.
Se precisar, até aumento.

Faço rimas pra chamar a atenção.
Sou poeta? Não, só canastrão!
Não tenho dúvidas que quase nunca é em vão.
Óbvio que não.
Mas minha fala disfarçada e esse jeito despojado... sei não.

Faço pose de bacana. Mas um dia, vou em cana.
Falso tímido, não sou. Desenvolto, também não.

Umas vezes desalmado, em outras descolado.
Ser tímido faz bem, não disfarço pra ninguém.
Sou um ser transfigurado e revoltado.
É, tá bem.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Paisagem

Tão perto, tão longe.


Na minha janela, só uma paisagem.
Uma árvore, um pintor e um vizinho.
A árvore é verde, o pintor ouve Raúl.
E o vizinho anda nu.

Minha parede é amarela e o pintor lá na janela.
O vizinho vê a mesa.
E a árvore é presa.

Tão perto, tão longe.
Sem angústias, sem pensar.
O que será se passa lá?

O pintor, horas ali. O vizinho, sempre ali.
A árvore não fala. E eu? Estou aqui.

Na janela do outro lado, um vazio e o céu.
As abelhas buscam mel, a moça vê seu véu e o tio olha pro céu.

Tão perto, tão longe.
Sem angústia, sem parar.
Tão longe, tão perto.
Incerto.

Na paisagem do meu quarto não tem Lô, não tem esquina.
Não tem mel e nem tem véu.
Só parede e escarcéu.
Tenho amigo que é réu. Tenho outros lá no céu.

O pintor e o vizinho são amigos. Não sabia.
A moça e o tio se namoram. Agonia.
As abelhas e a árvore trocam charmes noite e dia.
Meus amores, meus amigos, ironia.

Tão perto, tão longe.
Sem angústia, sem pensar.
Sem delongas, sem parar.
Tão longe, tão perto.
Incerto.

Todas as conexões estão ali.
E eu, estou aqui.
O mundo é imperfeito.

Tão perto, tão longe.
Apenas daqui.

A paisagem interage. 
O espectador, nem age.