terça-feira, 9 de agosto de 2011

Estranho, eu?


Estranho estar estranho, estranho as entranhas, estranho as minhas manhas.
Estranho as manhãs, estranho as maçãs, estranho as coisas vãs.
Estranho o meu vício, estranho esse meu jeito, estranho o meu peito.
Estranho o que me move, estranho os meus móveis, estranho as coisas jovens.
Estranho o que toco, estranho o que vejo, estranho tudo à volta.

O estranho do ninho (do post), não sou eu.
Sou um estranho em mim.


Uns vão, outros vêm

Enquanto uns se vão, com a atrocidade, a brutalidade e a velocidade um raio.
Outros logo vêm, com a leveza e a doçura da delicadeza.

Enquanto uns se vão, sem lastros, com marcas, desprovidos da lembrança.
Outros logo vêm, com simpatia e alegria, carregados de esperança.

Enquanto uns se vão, disfarçados e dilacerados.
Outros logo vêm, imunizados e despreocupados.

Enquanto uns se vão, aliviados da dor.
Outros logo vêm, floridos de amor.

Enquanto uns se vão, para plagiar ou desviar.
Outros logo vêm, para encaixar até calcar.

Enquanto uns se vão, com todos os seus contrapontos.
Outros logo vêm, recheados de reencontros.

Enquanto uns se vão, sem pensar no futuro.
Outros logo vêm, fincam antro maduro.

Enquanto uns se vão, com a melancolia de um passado distante.
Outros logo vêm, de um passado presente e constante.





Porque, como no trânsito caótico de ontem:
o lado vermelho vai, mas o branco vem.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Encontros, reencontros e coincidências

Outro dia, escrevi: “a vida é mais bonita quando é feita de felizes coincidências”. Não que eu tenha me referido a algum fato concreto, mas algumas pessoas acabaram curtindo, outras comentando e isto me fez refletir.

Afinal, a vida é encontrar e reencontrar, chegar e partir. A vida é feita pra coincidir. Canso de tentar buscar, algumas vezes evitar, mas é infalível: sempre me reencontro com aquilo que nunca encontrei, me encontro com aquilo que sequer toquei, me coincido com aquilo que jamais busquei. Por mais que carreguemos conosco algum tipo de esperança mórbida, da volta à normalidade, da cura, acabamos nos surpreendendo nos momentos mais despretensiosos. E como são gostosos.

As coincidências infelizes também existem, é claro. Tento disfarça-las, ignorá-las, ter a ilusão de que ficarão ali escondidinhas, a ponto de jamais se revelarem. Mas, as danadas me perseguem, se impõem no meu dia-a-dia de forma bruta (e abrupta), eu simplesmente as aceito. Errado? Acho que não, sabe se lá. Errado mesmo é acreditar que tudo será como antes, que nada é feito para acabar, que um dia faremos o tempo parar. Não temos nenhuma máquina retroativa, nenhuma ferramenta condutiva, só a certeza de que qualquer ação jamais será corretiva.

Vivemos de alucinógenos, fugas e recaídas. Vivemos da vertigem, da adrenalina e da anestesia advinda dessa ironia. E aí, seguimos assim, nessa de tentar nos corrigir, nos reinventar, buscar o novo e tentar mudar. Disseminar, cavalgar, ressuscitar. O chão cai, a cama fica vazia, a violência quase nunca é tardia. A pele fica crua, a alma fica nua. Mas aí vêm as coincidências, insólitas, lá do meio da rua. E tudo muda da noite para o dia, é só olhar para a lua.

Não gosto de pensar em despedidas, situações mal resolvidas. Gosto de me levar, deixar levar, não tentar me enganar. Vomitar. Pois se essa é a única forma de me entender e me aceitar, não tenho que negar. Gosto de anular todos os meus desejos, mas também gosto de descobrir aqueles que estavam mais ocultos, no inconsciente ou lá no fundo do guarda-roupa. Gosto de me deparar, gosto de me revelar, gosto de me inovar. Não gosto de partir, prefiro me coincidir. Coincidências, boas ou ruins, fazem parte de mim.


Já quanto à ansiedade que me percorria o corpo antes de isso tudo começar, bom, confirmou-se a minha alteração comportamental. Fumei uns cigarros, tomei vários drinks, abri o apetite. Eu dormi. A melancolia até bate a porta, mas reluto em abrir. Que há uma ferida grande a cicatrizar, não tenho dúvidas, pois se não houvesse eu juro que seria mais fácil. Não haveria dor, mas também não seria amor.

No final das contas, o que vale mesmo é que ainda tenho muito a descobrir, coincidir, encontrar e reencontrar. Deixar o tempo cuidar das coisas, porque assim é que é bonito. 

domingo, 7 de agosto de 2011

Adaptabilidade



O pneu furou, trocou.

O chuveiro queimou, o vizinho salvou.
O empregado faltou, ele mesmo lavou.
O ppt não abriu, improvisou.
O plug não funcionou, trocou.
O salário aumentou, economizou.
O encontro inesperado rolou, excitou.
Pediu um beijo, enrolou.
Sentiu desejo, raptou.
Buscou o novo, encaixou.
Precisou reinventar-se, danou.
O amor não acabou, equilibrou.
A regra mudou, adaptou.

Idade, vaidade, metade.
Sinceridade, ansiedade, necessidade.
Incapacidade, imortalidade.
Adaptabilidade.

Como o ser humano é tão capaz de substituir a si mesmo?

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu queria ir embora

Eu queria ir embora desse planeta apenas com um papel e uma caneta.
Que é para me inspirar, rascunhar, tentar contar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com umas coisinhas na maleta.
Que é para não sujar, fazer durar, poder me trocar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com uma jaqueta.
Que é para não esfriar, conformar, a mim confortar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com uma violeta.
Que é para aflorar, respirar, tentar cheirar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com uma borboleta.
Que é para planar, bater asas e poder voar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com uma corneta.
Que é para chocar, buzinar, não parar de gritar.

Eu queria ir embora desse planeta apenas com uma gaveta.
Que é para guardar, armazenar, não pensar em voltar.

Mas, insisto em insistir.
Meu lema eterno é ficar ou partir.
Não hoje, não amanhã, para não desistir.
Resistir.

Porque o que eu queria mesmo era ir embora desse planeta apenas com uma lambreta.

Que é para vagar, sem me preocupar.
Que é para sair, sem a mim resistir.
Que é para correr, perdoar e viver.