E hoje, despretensiosamente, reflito e concluo: não há nada material que me mova, me maltrate, ou algo que eu deseje desesperadamente. Pois bem, tenho que comprar um carro, mas não me atrai nem aquele um ponto zero baratinho, usado, sequer o quatro por quatro maravilhoso que há tanto almejava, aquele que eu namorava diariamente na vitrine da loja. Até comprei uma televisão maior que a minha própria sala, mas nem consegui liga-la desde então. A minha mesa, bem bonita e lá de Tiradentes, sei lá se faz sentido. Afinal, eu como mesmo é no sofá. O meu celular tem internet, manda e-mail, mas de que adianta se o que eu quero mesmo é pessoal? Minhas viagens, as fotografias e todos aqueles badulaques. De que adiantam também, se é na memória que vou achar as lembranças mais belas? Pergunto-me, então, até onde vai o meu desejo e quando é que me revelo? O que eu quero e o que, efetivamente, me faz bem? Onde estou? Para onde vou? Não sei, só desejo o que restou. O que estou hoje.
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
As vinte e cinco músicas mais tocadas de todos os tempos no meu ipod no último ano (+ duas)
Para lembrar: Flor da idade (Chico Buarque)
Para nascer: Let it be (Beatles)
Para viver: Hey Jude (Beatles)
Para sofrer: 6 minutos (Otto)
Para sofrer (um pouco mais): Onde estará o meu amor (Chico César)
Para sofrer (ao quadrado): Filha (Otto)
Para sofrer (e mandar o mundo inteirinho se fuder): Crua (Otto)
Para dramatizar (e ficar brega): Volta pra mim (Roupa Nova)
Para afogar as mágoas: Tears dry on their own (Amy Winehouse)
Para pensar no novo: Loving strangers (Russian Red)
Para (re) lembrar: Subúrbio (Chico Buarque)
Para (re) nascer: Galope rasante (Zé Ramalho)
Para (re) viver: A horse with no name (America)
Para meditar: Illumination (Secret Garden)
Para inspirar: Pé do meu samba (Mart’nália)
Para sorrir: Felicidade (Marcelo Jeneci)
Para viajar: Dura na queda (Chico Buarque)
Para voar: June afternoon (Roxette)
Para (se) jogar: Eu quero é botar o meu bloco na rua (Sérgio Sampaio)
Para desejar: A cor do desejo (Ney Matogrosso)
Para dançar: Caio no suingue (Pedro Luís e a Parede)
Para extravazar: Can´t buy me love (Beatles)
Para gritar: Cry Baby (Janis Joplin)
Para gozar: Psycho Killer (Talking Heads)
Para explodir: Feito pra acabar (Marcelo Jeneci)
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Para ser a mais inesquecível: Por una Cabeza (Astor Piazolla)
Para ser a melhor de todos os tempos: O mundo é um moinho (Cartola)
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Até o fio da navalha
E nessa de tentar me convencer de que o mundo é grande, de que as coisas materiais são passageiras, de que os Homens irão se respeitar, de que a liberdade plena há de vir, de que arte e cotidiano tem o direito de se confundirem e, eu, de me iludir, vem essa realidade nua, crua, cuspira e escarrada, me choca com um toque de recolher abrupto, coloca minha bandeira a meio-pau e me dilacera com um desejo supremo de explodir. Será que nada vai mudar?
Eu, que fui lá bem perto do fundo do poço, questionei-me nos atos, busquei-me no vácuo e montei-me inócuo, garanto: por mais que ainda não tenha chegado a hora de querer fugir ou de pensar em partir, a leveza desse ser ainda está longe de vir. Ingênuo que só eu, chego a cogitar o novo, renovar o bojo, encher de lápis coloridos aquele velho estojo. O mundo é menor do que eu queria, é fato que preciso dar um tempo ao tempo, sinto que a minha arte não é bela, mas sincera, me reconstruo em forma de aquarela.
Devo seguir aquela estrada amarela, tão singela que só ela. Nessa jornada, deveras longa, ei de descobrir os desejos distantes, por demais impactantes, me desprover de todos os antigos sonhos e das faltas certezas. Se essa overdose de presente não me enganar, eu me prezo e não vou me entregar. E se o acaso escancarar-me que um dia vou morrer, eu desvio e lhes digo: nem antes, nem outrora, a minha hora é agora.
Se a morte é iminente, viverei com tanta intensidade para fazer valer a pena esse intervalo sem fim. E se as únicas opções que me derem forem a direita ou a esquerda, vou escolher sempre ir pelo meio, incerto, buscando um sol que brilhe para mim, até que um dia, enfim, o sino bata e avise: meu amigo, chegou a sua vez.
Enquanto esse dia não vem, prometo aceitar esse meu sangue interiorano, o meu veneno taurino e o meu jeito latino, lançar-me na vida com tanta atrocidade que nem dará tempo de pensar em voltar. Prometo jogar-me na velocidade terrível da queda, fazer de todas as manhãs sãs, de todos os dias vívidos e de todas as noites minhas. Prometo enlouquecer-me na minha sanidade, encher todos os meus copos de presente, embebedar-me do momento, enxugar-me dos meus prantos e descavar-me desses antros. Eu prometo colocar o meu bloco inteirinho na rua.
Prometo lutar insistentemente pelas minhas convicções e pelos meus desejos. Prometo levantar da cama e ficar de pé, prometo ir para a rua quando a lua me chamar e prometo também não sair só. Mas que, se um dia o tiver que fazer, irei sem dó. Prometo não tentar carregar mais do que eu possa aguentar, dançar na chuva quando ela vier e tragar aquele cigarro lentamente, como se fosse o último. Prometo chorar, sorrir e espernear nos momentos de alegria, mas também prometo me recolher naqueles de melancolia. Eu prometo ser poeta, profeta e ter uma triunfal imaginação, ser daqueles que sobe em cima da mesa e pede uma, e pede dez, e pede mil!
Prometo me mostrar a vida e nunca mais a mim dizer que é despedida. Não vou dar bobeira, não vou sentir culpa, eu vou jogar fora tudo aquilo que não cabe em mim e me encontrar nas profundezas do meu próprio mar sem fim. Pois, se a gente é mesmo feito para acabar, eu prometo viver até que a última gota de suor caia, até que o último suspiro valha, até o fio da navalha.
domingo, 14 de agosto de 2011
Um presente para ele
Outro dia, atendi ao telefone e logo ouvi: “Fala poeta!”. Fiquei paralisado por alguns instantes, sorri sozinho, mas mantive a conversa como se nada estivesse acontecendo. Falamos de trabalho, da saudade, do dia-a-dia e de coisas quaisquer, mas aquilo me marcou, entrou para a lista de “coisas a serem publicadas” e ali ficou guardadinho, esperando o momento certo. Na ocasião, o meu leitor deveras empolgado do outro lado da linha era o meu pai. Decidi hoje, então, responder com esta carta aberta. Poeta, eu? Pera lá. O artista aqui é você. Quem é que já regia aos quinze, flauteou e trumpeteou como ninguém e uma banda inteira orquestrou? Quem é que revolucionou a cena artística varginhense – e olha que tarefa difícil! -, que é a referência em produção cultural na região e que despertou em mim esse lado mágico da vida que é trabalhar com arte?
E foi exatamente assim. De certa maneira, eu fui preparado para virar engenheiro, advogado ou médico. Não que toda a família me induzisse a tal, pelo contrário, mas o ambiente que cresci, a escola, os amigos de infância, os pais caretas dos amigos e a sociedade pra lá de tradicional sempre me remetiam ao “lado negro da força”. Mas foi aos quartoze, quando comecei a entender um pouco mais de como as coisas funcionavam, que decidi segui-lo. Você nem percebeu, mas desde já eu comecei a te enganar. Ali dei os primeiros passos, hora panfletando, hora vendendo ingressos, depois fingindo que sabia fazer. Fingia que sabia fazer produção. E fingia muito! Fingia que cuidava da segurança, da portaria, eu fingia que sabia cuidar do camarim e tinha certeza de que alguma coisa estava sendo feita por mim. E você, silenciosamente sempre ali do lado, observando e cuidando para que eu não fizesse nada de errado, mas que mesmo assim continuasse acreditando que eu mesmo é que estivesse cuidando de tudo. E eu, claro, caía.
Logo depois, quando fui para a capital atrás do meu sonho, descobri o universo dos projetos, me especializei nas danadas das leis de incentivo e dali parti para chegar onde estou hoje: feliz. E agora, quase aos trinta (tarde, confesso), faço questão de escancarar essa inspiração que, por mais que sempre estivesse presente no nosso dia-a-dia, nunca tinha sido verbalizada. Sempre ali oculta, nas entrelinhas, apesar de todos sabermos de onde vim e porque é que eu estava ali.
O meu pai é diferente. Ele organizava os campeonatos de xadrez apenas para que eu pudesse manter acesa a chama do meu sonho, ele faz um festival de rock n’ roll na roça, um outro na estação de trem, ele dirige um teatro e rege uma banda inteira. Ele tinha uma labradora, hoje tem uma poodle, ele toma todas comigo ou sem-migo, leva o meu vô Tarzan para pescar e faz o melhor frango ensopado que eu já comi. Ama infinitamente a minha mãe, ama a mim e aos meus amigos, volta e meia fico espantando com os tantos outros que também o amam, o admiram ou o tratam como um mestre. E ele é exatamente isso, um mestre. O seu pode até fazer isso tudo vezes dois, mas eu sempre vou ficar com o meu.
E é por isso, pai, de peito cheio e com muito orgulho que hoje eu digo:
O jazz aqui é você. Eu sou apenas a cópia.
Provavelmente, quando estiver lendo tudo isso, eu já estarei longe e de volta à rotina. Se nesse momento encher os olhos d’água, não segure, porque assim que é bonito.
Espero estar retribuindo a todos esses anos de amor, carinho, educação e a forma de condução que você e a mãe – que depois receberá também um texto exclusivo - deram para a minha vida.
Feliz dia dos pais.
Te amo.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
A função da escrita
Porque escrever é arte, não se confundam.
Sobre mim, como antes anunciei, tenho me alternado entre “posts rápidos de poeminhas bobos e textos densos de sentimentos tolos”. Nunca estive tão mal quanto me revelo nos melancólicos, tampouco exclusivamente bem, inteiro e fortemente armado, como tento me apresentar nos demais. Estou exatamente no meio. Os sentimentos são apenas singelas inspirações, um empurrãozinho para o rascunhar, pois raramente são eles que escolho para postar.
Sobre todos nós, devo apenas sugerir. Nós, vãos escritores, vivemos basicamente de duas coisas: tentar e tentar. Hora, tentamos nos mover pela imaginação. Hora, aumentamos e inventamos para tentar convencer. Mas, repetidamente, tentamos surpreender pelo jeito inusitado, exclusivo ou descolado da escrita. Buscamos aquilo que não está nos gibis, nas revistas e nos best-sellers, aquilo que está oculto, no inconsciente ou no fundo da gaveta, aquilo que nenhum ser-da-escrita antes conseguira alcançar. Alguns apelam para as rimas, outros para citações musicais, contos ou poemas, uns tentam ser simples cópias de autores e desautores raramente lidos. A coincidência é que sempre escrevemos para vocês também, claro. Mas, não se iludam, são meros coadjuvantes e sempre o serão. A nossa busca é por tentar trazer à tona apenas aquilo que nós mesmos queremos, pois somos os nossos próprios leitores, somos a causa e também somos o efeito.
Várias vezes ao dia acessamos o blog para verificar novos comentários, o número de visitas, ou só para darmos uma espiadinha mesmo, daquelas bem escondidas até da nossa sombra. Somos tarados. Desesperamo-nos quando não há nada novo ou quando não vemos nenhum “curtiu” ou “sorriu”. Nesses momentos cruéis, julgamo-nos a farsa, a escória e temos a certeza absoluta de que os holofotes não funcionaram. Não conseguimos lhes enganar e, mesmo postando e insistindo por diversas vezes, não funcionou. Em outros, nos deparamos com despretensiosos comentários, sejam anônimos ou identificados, alguns “adorei” ou “chorei”. Leituras diversas e adversas daquilo que de fato esperávamos, a tentativa de traduzir em palavras aquilo que julgávamos impalpável. Nesses momentos, meus caros, geralmente sorrimos.
Devo confessar que estou nessa aventura há pouco, mas tenho me surpreendido dia após dia comigo mesmo e com as raras fontes de inspiração que porventura vêm sendo desvendadas. Hoje, por exemplo, me inspirei com ontem, com um azulejo do banheiro e até com o fio de água fria que saía do chuveiro. Nesses momentos – que antonimamente estamos sem os nossos mais fiéis, os rascunhos – saímos correndo, desesperados e desenfreados para psicografar. E não é raro também sentarmos em frente ao caderno e tudo ficar vazio, tudo novo (de novo) e voltarmos ao início. Mas, de forma mágica e poética, em outras vezes aquela palavra torna-se um texto, aquele momento torna-se um conto, aquela viagem torna-se um livro, aquele comentário nos abre um mundo. E a gente, ufa, respira fundo.Vivemos numa cruel e insistente busca por mensagens insólitas, leituras dúbias, ditos subliminares. Tentamos escancarar aquilo que aparentemente não é e esconder aquilo que com certeza é. Fingimos explicitar as coincidências, jogamos falácias para omitir sentimentos e remetemo-nos a momentos nunca existentes. E nesse eterno jogo de palavras e ideias, sistematicamente temos que fechar com chave-de-ouro. E quando conseguimos encaixar, meus amigos, aí é uma explosão de gozos ininterruptos.
A escrita, na verdade, não tem uma função muito clara. Pelo menos não pra mim. Não é alcançável, não dá para pegar ou tocar, não consigo nomear. Não há conceito coletivo, a escolha é sua. No final das contas, a minha escolha é fazer dela uma ponte entre a realidade e a ficção, entre o sim e o não, entre a melancolia e a diversão. Fico apenas com me aliviar, me acalmar e me encantar. Escondo-me na tristeza, revelo-me na destreza. Porque se escrever é arte, a mim enganar também faz parte.
Já os meus pares, aqueles que chamei de “todos nós”, talvez eu consiga nomear. A esses seres melancólicos, românticos, incompletos, inspirados, desautores, falsos poetas ou pseudo-escritores que, assim como eu toparam se aventurar, dou o nome de loucos.
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