terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sem regras

Às vezes digo sim, às vezes digo não.
Às vezes me embebedo, às vezes fico são.
Às vezes rumo certo, às vezes contramão.
Às vezes me alongo, às vezes sem delongas.
Às vezes vou ao mato, às vezes fico um trapo.
Às vezes com amigos, às vezes inimigos.
Às vezes só comigo, às vezes vou sem-migo.
Às vezes apertar, às vezes amarrar.
Às vezes pra grudar, às vezes libertar.
Às vezes dou um nó, às vezes viro pó.
Às vezes tô aqui, às vezes nem aí.
Às vezes pra nascer, às vezes sem querer.
Às vezes renascer, às vezes pra morrer.
Às vezes acordar, às vezes revelar.
Às vezes me encantar, às vezes dessalar.
Às vezes para amar, às vezes pra esquecer.
Às vezes pra viver, até o entardecer.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Quando batem os sinos

Rufam os tambores, levantam-se as bandeiras, batem os sinos. A insônia vem, as borboletas no estômago chacoalham, navalham, devaneiam e esperneiam. A gente não dorme e não encolhe, fica grande e fica mole. A gente, no fundo, não escolhe. Pouco importa a decoração ou o colchão. Os pés ficam fora do chão e, o coração, na mão.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Who´s gonna save my soul?



[numa típica lanchonete americana, sentados um de frente pro outro, ela começa]

- Eu... Eu preciso de espaço... Eu preciso de tempo para descobrir quem eu sou, sabe? Não é você, não é você mesmo. Sou eu. Tipo, eu estou tentando descobrir quem eu sou e não consigo fazer isso se eu estiver tentando te descobrir.

Ele a ouve, mas parece não prestar atenção. Em um gesto indiferente ele se vira para a garçonete que está passando e pede:

- Você poderia me conseguir um outro prato, por favor?

Em silêncio ele pega uma faca e a enfia em seu próprio peito, apoia a faca ensanguentada sobre a mesa, arranca seu coração, o põe no prato e entrega a ela.

- É para você. - ele diz.

Ela continua sem entender o que ele está querendo fazer.

- Você está percebendo que eu estou terminando com você, né?

Ele simplesmente continua a falar:

- É uma coisa estranha... Na verdade, ele é seu agora. Eu não sei porque funciona assim, mas eu nunca vou conseguir te superar. Então de agora em diante, toda garota que eu conhecer vai ser meticulosamente comparada a você, e, infelizmente, nenhuma delas vai chegar a altura da falsa memória do que nós dois "tínhamos".

- Hum, bom... Talvez eu possa ficar com ele um pouco e usar para algumas coisinhas como... Sei lá, se eu estiver tendo um dia muito ruim, se eu precisar de alguém pra conversar ou pra mudar alguma coisa de lugar e então, eventualmente, eu te devolvo quando nós encontrarmos outras pessoas.

Ele pacientemente a responde:

- Infelizmente não vai funcionar desse jeito.

E ela sem entender o pergunta:

- Porque não?

E ele a explica:

- Bem, agora que você tem meu coração, eu sou basicamente uma cavidade vazia por dentro. Na falta de um termo melhor, sem-coração. Eu agora tratarei todas as mulheres que eu conhecer com um comportamento passivo-agressivo, arruinando relacionamento atrás de relacionamento por vários e vários anos.

Há tempos, eu já queria ter colocado esse post. Mas, só hoje achei esse vídeo lindo que um dia recebi de uma amiga. Essa amiga aí conseguiu me ler, me entender e, mesmo me entendendo, me aceita e me adora. Não vou revelar o seu nome, pois nem sei se ela gostaria, mas eu já falei pra ela que a recíproca é verdadeira e que eu a amo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Confusão

Não sei se é bom ou ruim, mas enfrentar as confusas intempéries da vida faz lembrar-me de você. É, você mesmo, que havia fugido por alguns instantes daí do seu lugar cativo. Meu amigo, convenhamos. Você é descolado, deixa a barba por fazer, pois é assim que as meninas gostam, sempre tenta acompanhar os movimentos contemporâneos daqui da cidade e de todo o mundo. Esta sempre aí. É melancólico que só Deus, um pouco chato, egocêntrico, sistemático e egoísta, no sentido mais leve da palavra, mas, tudo bem, é só às vezes mesmo.

O seu blazer azul, a sua blusa vermelha e o seu chapéu panamá revelam-te belo. Você até tenta fingir, mas no fundo é um cara bem bacana. Só um pouquinho acima da média, que é para não se convencer. Você se amarra em arte, escreve bem, tem um blog, alguns seguidores, bons amigos, bom emprego, mora sozinho, é inteligente e é também sincero, bem sucedido e não tem quase nenhum preconceito. É, mas só quase. Você adora um vinho, uma cerveja, uma cachaça e encara até um champanhe, se preciso for, e quando encara bebe até cair. 

Você fuma, bom, você fuma. Mas, ver você fumar todos aqueles cigarros, confesso, é uma inspiração ininterrupta. Você e o seu cigarro... que dupla, que rito, que passagem, que celebração do seu próprio eu. Ver você te celebrando é lindo. Fiquei sabendo que você adora se arriscar na cozinha e sabe até dançar um pouquinho. Vai para o mato sempre que possível, se joga, mas adora aquelas cidades bem cosmopolitas também. Simpático que só você, transita muito bem entre todos esses universos. Nos movimentos esquerdistas, nas ondas cultas, cults e moderninhas. Tenta se aceitar como tem que ser e encanta, mesmo que só a alguns.

E é assim. Você é um cara que consegue ser sem nunca antes ter sido. E acho também que você se daria ao luxo de transformar-se em qualquer coisa apenas para que se sinta melhor. Vejo também que adora novas experiências, não é? É, vejo que adora e paro por aqui. Percebo uma atitude cotidiana um pouco distante aos nojentos mundanos, uma lealdade absurda aos pares e percebo, ainda, que adora viajar e que, se preciso for, você reflete, reflete, reflete. E também chora, se derrete, se joga no mar, se joga do abismo, se destrói e depois tenta. Tenta se reconstruir. É, mas ver você assim é duro. Você já foi desejado um dia, então carregue contigo a certeza de que o será novamente, às vezes até na esquina da sua própria casa. Mas, lembre-se: se desejar é ainda mais importante.

Sei lá porque eu disse tudo isso, se o que eu queria mesmo era de te pedir apenas uma coisinha. Ao contrário de Vinícius, que se nascesse de novo iria querer um pinto um pouquinho maior, se eu fosse você eu escolheria uma pitadinha a mais de sal, doçura, desapego, amor próprio e de maturidade para assumir que você, espelho meu, também sou eu.

terça-feira, 13 de setembro de 2011