terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Acordei

Acordei triste. Cansado. Estrada novamente, preciso. Cidade novamente, um caos. Casa. Não há novidade. Ruas. Há trânsito. E brigas, e discussões desenfreadas, e apenas o barulho do freio dos carros. Motores, não batam. Isso é agressão. Roedores. Coxinhas. Falsos atores. Molestadores. Não há poesia. Não há flores. Não há rima. Não há consentimento. Que venha o carnaval. Ebulição é minha alma, vontade de voltar. Vomitar. A praia, a beira, à espreita, o rascunho, a canga. Os meus livros. E os meus cigarros também. Estão longe, todos, tolos, e aqui tudo tão perto, vago, impreciso. Não sei o meu lugar. Agora, amanhã. Quisera saber.  Quisera querer. Observar. Distante, alma presa ao volante. Devo trabalhar. Lá vou eu, a labuta me aguarda. E o meu chefe também.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Marimbondo

“A dor de estar distante não é maior, tenha certeza, do que a felicidade em saber que tudo caminha tão bem”. Foi o pensamento que me veio quando, ainda de férias e longe de beagá, tive notícias do lançamento de “Marimbondo”. Alguns podem julgar esta pauta como atrasada, lá se foram mais de dez dias, mas não me arriscaria jamais a dizer isto sobre uma das matérias mais inovadoras e contemporâneas que já me deparei. É veneno na veia. Feitura linda isso que habitualmente chamaríamos de revista, mas que prefiro tratar desde então como uma obra de arte, e das primas, resultado de um longo e intenso, mas não tão tenebroso inverno ao qual se embrenharam as brilhantes, sensibilíssimas e criativíssimas Júlia e Carol (Canal C), com toda a sua trupe, é claro, liderada pela não menos brilhante e criativa Mariana (LAB Design).

Ao voltar de férias, um pouco ansioso, confesso, rapidamente tive mais e mais e mais notícias. Não parava de recebê-las. Esquivei-me por alguns instantes, e juro que tentei, mas não consegui esperar o meu exemplar e logo saí correndo para investigar, sem contar para ninguém, aquilo que estava chacoalhando os esqueletos dos belo-horizontinos, cutucando alguns, encantando outros e fazendo até defunto se remexer no caixão. Foi quando descobri e tive coragem de encarar o conteúdo que as meninas fizeram questão de disponibilizar integralmente no site do projeto. Versão sem cortes. Foda. Posso usar esse termo? Foda! 

Não cheguei nem à metade, mas fiquei encantado também - como muitos dos outros e como há muito não ficava - e pude detectar logo nos primeiros parágrafos, nas primeiras imagens e nas primeiras dobrinhas, a transcendência completa daquilo que, como disse, nos acostumamos a chamar por revista. Veja por si só, isso sim é uma coisa à nossa época. Caras, bocas, fatos e palavras em sua face mais crua, nua e genuína. E com os melhores trocadilhos possíveis, e não lá, mas cá.

Fico muito feliz, e de peito cheio, arriscando-me – e isso eu já disse às autoras antes mesmo desse post - como um dos maiores cúmplices dessa promissora história. É com muito prazer que integro a equipe desta ideia – que é muito maior do que um projeto, e eu sempre soube disso, elas “bobas” é que não sabiam -, mesmo que tenha de me empregar uma forcinha extra para dar conta enquanto tudo isso durar. Quem me conhece bem sabe do que estou falando. E que dure bastante, pois coisa nossa é coisa boa, como bem adiantou o meu amigo Dedé outro dia - aqui e aqui -, com palavras não menos sensíveis e legítimas do que as minhas.


Com a tua licença, agora, serei um pouco egoísta e passarei a chamar esse projeto um pouco de meu também, de nosso, de todo mundo, mesmo que o continue fazendo da forma mais possível que encontrei. Marimbondo é linda. É a alma gêmea dos nossos tempos. E que chegue logo o meu exemplar, e que venha logo a segunda edição! Emocionei.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mais do mesmo

O ano começa agora para mim. E é agora que o ano do blog começa também. Roda-gigante frenética essa minha vida, retrocesso sinistro esse retorno à capital. Parecem-me não terem sido suficientes, as férias, por mais que eu ainda não tenha dado conta de que acabaram. Ou talvez esteja fazendo-o, agora, no momento em que escrevo esse texto. Voltei, é. E na volta o choro veio novamente. Só que é um choro um pouco diferente de antes, não caem lágrimas, é de dentro, não sei bem explicar, e também não é só meu, é nosso, vem um pouco carregado dessa difícil missão de retornar à realidade, ou melhor, de encará-la de frente.

A desconexão é muito clara, estamos indo para um lugar muito pior do que estávamos pouquíssimos dias atrás. É só ficar alguns dias fora que a percepção torna-se ainda mais clara: mais do mesmo, nada mudou. Variações sobre os mesmos temas. Blá, blá, blá. É coxinha pra lá, coxinha para cá, os políticos continuam a mesma m... erda de sempre, com direito a qualquer trocadilho possível, enchentes, enchentes e mais enchentes, o carnaval lindo de beagá com marchinhas censuradas, a ineficiência do poder público, preconceito com tudo e todos, e em todas as classes, pau geral. Pane. Hora de pular de alguns barcos e jogar-me em outros novos, como bem adiantei outro dia no texto "Lutamos como nunca, perderemos como sempre?"? Estou um pouco perdido, confesso, meio que desnorteado com isso tudo que chamamos de rotina, de cidade grande, de velhos amigos, do dia-a-dia, do tudo igual, do mais do mesmo. Ira.

Nas férias, li cinco livros, depois falo sobre eles, mas o que mais me pegou foi o “Pequenas Epifanias”, seleção de crônicas do Caio F., editado depois de sua morte. É surpreendente, e é de onde retirei o texto abaixo, que é de 1987. Muito mais atual, contemporâneo e decente do que todos os salgadinhos descentes que vemos por aí. Fala de aids, mas fala de tantas outras coisas também... Para bom entendedor, basta. E nem precisa de meia-palavra. E os nossos problemas? Bom, os nossos problemas não acabaram e não há ambervision que resolva tudo isso. Continuam os mesmos, é como se se todas as ideias, as propostas e a força da sociedade fossem morrendo aos poucos. É sempre mais, é sempre o mesmo, é sempre mais do mesmo. Precisamos mais é de nós. E sempre.


A mais justa das saias


Tem muita gente contaminada
pela mais grave manifestação
do vírus – a aids psicológica.


A primeira vez que ouvi falar em aids foi quando Markito morreu. Eu estava na salinha de TV do velho Hotel Santa Teresa, no Rio, assistindo ao Jornal Nacional. “Não é possível” – pensei – “Uma espécie de vírus de direita, e moralista, que só ataca aos homossexuais?”. Não, não era possível. Porque homossexualidade existe desde a Idade da Pedra. Ou desde que existe a sexualidade – isto é: desde que existe o ser humano. Está na Bíblia, em Jônatas e Davi (“... a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi e Jônatas o amou como a si mesmo” – 1 Samuel, 18), nos gregos, nos índios, em toda a história da humanidade. Por que só agora “Deus” ou a “Natureza” teriam decidido puni-los?

Mas de coisa que-se-lê-em-revista ou que só-acontece-aos-outros, o vírus foi chegando mais perto. Matou o inteligentíssimo Luiz Roberto Galizia, que eu conhecia relativamente bem (tínhamos até um vago e delirante projeto de adaptar para teatro Orlando, de Virgínia Woolf, com Denise Stoklos no papel principal, já pensou?). Matou Fernando Zimpeck, cenógrafo e figurinista gaúcho, supertalentoso. E Flávio Império, Timochenko Webbi, Emile Eddé – pessoas que você encontrava na rua, no restaurante, no cinema. O vírus era real. E matava. Aí começaram as confusões. A pseudotolerância conquistada nos últimos anos pelos movimentos de liberação homossexual desabou num instantinho. Eu já ouvi – e você certamente também – dezenas de vezes frases tipo “bicha tem mesmo é que morrer de aids”. Ou propostas para afastar homossexuais da “sociedade sadia” – em campos de concentração, suponho. Como nos velhos e bons tempos de Auschwitz? Tudo para o “bem da família”, porque afinal – e eles adoram esse argumento – “o que será do futuro de nossas pobres criancinhas?”

Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade. (É curioso, e revelador, observar que quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como “o escritor homossexual” mas estou certo que se viesse, por exemplo, Norman Mailer, ninguém falaria do “escritor heterossexual”). Sim, a moral e os bons costumes emboscados por trás do falso liberalismo – e muito bem amparados pelo mais reacionário papa de toda a (triste) história do Vaticano – arreganha agora os dentes para declarar: “Viram como este vício hediondo não só corrompe, mas mata?”

Corrompe nada, mata nada. Acontece apenas que a única forma possível de consumação do ato sexual entre dois homens é mais favorável à transmissão do vírus, que se espalhou nesse grupo devido à alta rotatividade sexual de alguns. E é aí que começa a acontecer isso que chamo de “a mais justa de todas as saias”. Afinal é preciso que as pessoas compreendam que um homossexual não é um contaminado em potencial, feito bomba-relógio prestes a explodir. Isso soa tão cretino e preconceituoso como afirmar que todo negro é burro e tudo judeu, sacana.

Hetereos ou homos (?), a médio-prazo iremos todos enlouquecer, se passarmos a ver no outro uma possibilidade de morte. Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus – a aids psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido à distância. E da mente? Porque uma vez instalado lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas imunológicas, mas com suas emoções, seus gostos de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se. Sem isso, não tem graça a viver, concorda? Você gostaria de viver num mundo de zumbis? Eu, decididamente não. Então pela nossa própria sobrevivência afetiva – com carinho, com cuidado, com um sentimento de dignidade – ô gente, vamos continuar namorando. Era tão bom, não era?

Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 25/3/1987


E chuta a família mineira!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Férias em mim

Game over. Acabou. Foi-se aquilo que habituei-me a chamar sem culpa alguma por férias. Pequena pausa. Foram vinte e cinco dias comigo. E foram uma delícia. Necessários. Três mil trezentos e trinta e dois quilômetros. Eu, as minhas lembranças, o meu carro, as minhas angústias, o meu ipod, as minhas perguntas e o meu cigarro, que ainda não consegui largar. Impressive. Me joguei. Morro de São Paulo, Moreré, Itacaré, Arraial, Tranconso e Caraíva, necessariamente nessa mesma ordem, umas boas, outras médias, todas lindas, e muita história para contar. Se você ainda não foi à Bahia, nega, então vá.

Silêncio. A maioria do tempo foi assim. Ficamos fechados. Eu e o mar. E o meu rascunho também. Era a proposta mais genuína e legítima que eu poderia me proporcionar. E abracei. Imergi-me nos mais profundos e minuciosos detalhes naquilo que também habituei-me a chamar, nessa viagem, por auto-reconhecimento. Não fui ao meu encontro completo, supremo, ao extremo, into the wild como tanto queria, e esse é o resumo da obra, tampouco lancei-me brutalmente àquilo que tenho insistentemente tratado como o novo. Também não fiz muitos novos amigos, é verdade, mas tudo isso pouco importa, pois fiz muitos amigos em mim.

E que venha dois mil e doze. E que venha suave, doce e tranquilo, como a benção que tanto aguardamos de iemanjá no dia de amanhã. Eu quero é paz, eu quero é mais.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Desculpa aí, vai?

Desculpem-me, caros leitores - sabendo que mesmo fieis não são muitos, pois às vezes dou-me uma importância maior do que devia - por esta paralisação nos posts. Jajá voltam, em breve, prometo, e voltarão à toda, de maneira bem convencida, claro, não tenham dúvidas.

É que um ano acabou, o outro começou, e para mim ainda não tinha acontecido nada, estava tudo paralisado, inclusive eu mesmo, até que pude embrenhar-me em mais um dos meus desafios inventados: um mês viajando de carro rumo ao incerto, sem muitos roteiros ou situações pré-definidas, com o meu Marlboro, o meu ipod e o meu carro, que já não é mais zero, sem internet, telefone ou sinal de fumaça, mas com muitas inspirações, sensações do tipo positive vibrations, assim meio que tilelezísticas, e muita paz para começar este que promete-se revelador. Recarregar as energias é necessário, a bateria já estava arriada. A compreensão é bem-vinda.

Tenho recebido só boas notícias, é incrível, vestígios de que tudo vai bem, e prometo – não muito ansioso, confesso – o retorno do blog no início de fevereiro. A boa notícia é que vem livro por aí.

Um beijo nesses corações ensandecidos e muito axé para todos!