domingo, 11 de março de 2012

Se essa rua fosse minha...

Se essa rua fosse minha, eu cuidaria das plantas na calçada, eu teria uma praça sem regalias, sem falsas madrinhas, e uma cidade sem hipocrisia. Eu usaria fantasia. Teria carnaval o ano inteiro, e teria uma rua mais limpinha, sem coxinha, uma coisa meio assim, mais moderninha. Eu levaria uma vida sem preocupação, sem nãos, sem direção. Porque o nome disso, que chamamos de rua, devia ser nosso. E ponto. Com mais amor, por favor, e liberdade também. É preciso. Abraçar mais, gratuitamente, andar de bicicleta. Corrente. Eu quero muito. Podemos. Porque eu busco uma rua florida, em trânsito que flui, sem ser escondida. Uma rua com duelos, desnuda, em um tempo sem flanelas, e sem frestas nas janelas. Uma rua com velhinhos, com tabuleiros, com pipoqueiros, e sem muitos sinais vermelhos. Uma rua de balões amarelos, ou azuis, ou anis, de algodões-doces coloridos e corações esculpidos. Que pulsem. Quem sabe. Não quero travestidos, não quero bandidos. Que sejam banidos. Porque o que eu quero mesmo é uma época à minha maneira, laranja, à tua. E uma rua que seja minha, que seja nossa, aonde eu possa. E nada mais.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Vendo-me

Exaustivamente vendo-me, outro do que eu sou, ou o que sou, o que sobrou, o que restou incansável, percebo que, por sobrevivência, por intolerância, por ignorância ou por tudo o que está em jogo, ou o que está por vir, e virá, em dobro, muito mais do que ver-me, a questão é vender-me.

terça-feira, 6 de março de 2012

Bye, bye

Foi-se. Despediu-se, mesmo que temporariamente, o lado negro dessa nonstop mind. Progredi. Transcendi aquilo que habituei-me a chamar por prisão na minha alma. Libertou-se, libertei-me, ou estou libertando-me ainda, é um processo, mas o fato é que vou adiante, sigo, não duvide, pois eu não mais. Corrida frenética. Ainda não é um vermelho cruel, vivo em sua plenitude, é meio invisível, fosco, é verdade, mas dá indícios de que me levará bem longe. Quem sabe. Porque vermelho é vida, é novo, é a cor que eu mais gosto, e é também a que escolhi para essa nova parte da estrada. Se será bela, não sei. Que segue ao incerto, não tenho dúvidas. Continua. Mas o asfalto não é mais negro, apenas, e sombrio, frio. Floriu. E nada melhor do que rumar à primavera de uma nova maneira, a minha, só minha, na expectativa de que enfim eu me depare comigo lá na frente. Daqui, vou indo ao meu encontro. Até já. Bye, bye.

domingo, 4 de março de 2012

O que eu sinto

O que eu sinto é bom, é ruim, um quase nada. Mexe comigo, é sujo. Rasga. É uma simpatia pela anarquia, pela rebeldia, pela folia, é um desejo de ser. Estripulia. O que eu sinto é leve, esmaga, contraditório também, pois é suave. Conforta a mim, conforta a ti. E é bem difícil entender. Incompletude. Inesperança. Ineficácia. É controverso comigo, é o contrário da minha história, não flerta nem de longe com os ensinamentos da professora de literatura na escola. Porque não cola. É tanto, é muito. Aceito. É esplendor, e não é dor, não é amor, ainda, e também não é calor. Fosse. Tremor. E é frio, muito. E é fraco, vago. Mas é esbelto, claro. Revezo-me. Trago-me. Flutuo. Sinto-me rude, santo, tardio. Antes que seja tarde. Erra, falha, valha, mas acalma-me na hora. Não vá embora.

Se é plenitude o que eu sinto, não desvendei, mas sei que sinto, e sei que é bom, e sei que é pleno, e é pequeno, ardente, e é gostoso também. Não é em vão. Não. Eu sei. Nem aqui, nem lá, e nem ao longe. Entrego-me. Porque é chama, acende. É genuíno, não vende. Solto-me. Escuta. Solta-te. É fogo, transborda. Me vale. É ferida aberta e exposta, posto que me fere. É o meu peito, aberto e sonhando, posto que me arde. É a mim o teu ventre chamando e pulsando, posto que clamo, veneno, posto que mata. Não dói. Impõe-se. Sinto que é bem, de bem, faz bem. Vem. Sinto alguém. E esse alguém és tu, também. Me cala. Silêncio. Consente. Seja pele, a minha, vaza. Venha, filtre, não deixe nada. Anestesia. Nostalgia. Querer de novo. É o suor do teu corpo escorrendo no meu, a lágrima do teu rosto em prantos, é o destino chamando, são os teus olhos em brasa, a tua mão em mim, é um pouco da lembrança daquele brinco grande e espalhafatoso que achei outro dia jogado na rua outro dia depois que te conheci, mas que não pude devolver-te, pois não te achei em nenhuma dessas redes sociais que eu costumo frequentar. Ainda. Pois é história anunciada. Saiba. É minha vida, é a tua, são os novos tempos. É paquera, um quase sim, assim, assim.

O que eu sinto eu sonho, é sonho, quase não durmo. Insônia vem, insônia vai, insônia volta. Fica. Talvez você. E o sonho volta. Laranja venoso, gosto de ferro fundido amargo, céu de algodões-doces coloridos, cheiro de madeira velha molhada. Não é um nada. Vem sem traquejos. Vem. Seja quase, seja tudo, seja em mim. Pra mim. Porque o que eu sinto, ressinto. Porque o que eu sinto, pressinto. E pressentira, mesmo sentindo, que iria cruzar o teu caminho em breve. Estou aqui. É a negação do teu corpo que não aguenta mais, é a sensação do teu toque, é a revelação dos meus desejos mais ocultos, dos teus, bandidos, floridos, escondidos na varanda da tua casa. É um novo encontro. É o acaso. E é espera também. Não há pressa, saiba. Não há angústia também. Mas o que eu sinto é grande, não é só isso, é mais, transcende, não há como explicar, pois é difícil, e também não é saudade, porque ainda não o foi, mas é vontade, faz falta. O que eu sinto cheira, tem gosto, é cheio, em breve um gozo, espero, em breve um quero. Pois faz rodar-me as ventanas. Chacoalha. Estranha-me sentir, talvez não mais, porque me move, me hipnotiza, e devaneia. Esperneia as minhas escritas. Não fujo. Prometo. E o meu coração cafona também. E como. Porque o que eu sinto, tem vezes, é que a vida quis me fuzilar antes que eu te encontrasse, ou reencontrasse, ou te conhecesse, ou tivesse ao menos a chance de lhe dizer tudo o que eu queria, e o fez, tentou, descarregou o tambor com toda crueldade como de quem queria acabar logo com tudo isso. Indigna. Pifou. Falou então a minha alma. Gritou. Eu quero reencontro. Era festim. Falhou.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Morte em vida, Severino

Estimado Severino,

Quando a madrugada caía, e a minha alma já imune aos surtos de outrora, e eu ao relento, e em prantos também, pude de súbito pincelar algumas flechadas do acaso, ou do presente, não sei bem, e consegui também congelar e detectar singelas mensagens que pairavam como espectro, ao meu redor, acho que uma áurea trazida por fadas, por anjos ou por duendes verdes. Lembrei-me de ti e gostaria, com a tua licença, de entregar-lhe esse epílogo.

É que esse ano vai ser leve, lindo, meu, nosso, todo, vai ser inteiro, estou sentindo, mesmo que eu morra, pois eu acordei achando que vou morrer, mas não tem problema, não se assuste, é uma morte pretendida e acho até que batalhei por isso. Que bom que cheguei até aqui. É que a minha mente voltou a ser ebulição, não para, não dorme, não descansa, eu ando fraco, um frasco vazio, esquecido, alimentando-me pouco, emagrecendo, quase sumindo, quase me indo, é como se eu estivesse realmente morrendo aos poucos. Mas não é uma morte morrida, é uma morte querida, é uma morte do jeito que eu queria, à minha maneira, acredite, eu meio que já esperava isso. Lutei. Não há tristeza, nem melancolia, não há pesar e também não há nenhuma doença ou surto diagnosticados. Não há nada disso. Há só eu. E também há alegria, muita, por mais incrível que pareça. A carne anda trêmula, Severino, e as pernas bambeiam. O sono não vem, os olhos estão roxeados, inchados e venenosos, é como se não fechassem, e as pálpebras, negras, andam deveras saltitantes. Será que é o carnaval, aquele lindo que se foi? Ou os cinco trabalhos que eu tenho? Ou a solidão que ainda é uma constante? Ou os tempos novos que estão por vir? Não sei, sei que mesmo fraco, frasco, bandido, incongruente e só, e distante às vezes também, a sensação acaba sendo boa. E assim vou indo, levando os meus dias em direção ao norte, em direção à morte.

Mas tenho medo agora, Severino. Tenho medo do agora. Mesmo encorajado em demasia para enfrentar esses meus dias, esse cotidiano cafona, essa labuta cinzenta e todos os meus dilemas, ainda tenho medo da morte real, dessa morte do agora, iminente, tenho medo de uma morte morrida. Não é um medo que me aflige, como outros que já tive, é verdade, mas outro dia morri vivendo e isso já foi danado de difícil. Acho até que já lhe falei sobre isso em outras cartas. Seria ela, essa danada, que um dia convoca a nós todos com todas as suas garras, as suas correntes e os seus sarcasmos, batendo à minha porta? Seria um aviso dos santos, Severino? Dos anjos? Dos podres? Dos padres? Dos trastes? Não, não sei. Não sei o que seria isso, no fundo, e então me pego angustiado. Ando tão fraco, só sei disso. E não tem vitamina c ou hiperbáricas que me salvem. Sabe o que é uma hiperbárica, Severino? É uma câmara dessas que os médicos usam para acelerar a cicatrização das feridas, uma coisa meio tipo Wolverine. Chique, não é mesmo? Pois bem, mesmo com ela também não deu certo. Acredite. E ando tão só também, mesmo cercado de muitos amigos, novos ou velhos, e não culpando-os, então não tenha dó. Suplico. Não é disso que estou falando. Pois também não há sofrimento, repito. É só uma sensação estranha, um suave descolamento daqui, da vida, da terra. Da minha alma libertina.

É uma fraqueza boa, é uma fraqueza à toa, é uma fraqueza que, talvez, esteja me transformando em outra pessoa: metade morta, metade viva. Estou pensando até em aceitar esse estigma, essa carapuça, esse faz de contas, assumir de vez esse conto de desencantos, e, quem sabe, topar morrer para depois nascer de novo, nascer outro, nascer eu. Alguém mais eu, um eu novo, sabe? Vai ser tão bom. Eu quero é ser, quero ver todos sendo, e pouco me importa o resto, ou o que vier depois, ou até mesmo o que não vier. E se não vier, tudo bem, não terei problemas com isso. Pois um terço de mim já se foi quando eu morri da primeira vez, algumas partes pifaram, estraçalharam-se e arranquei-me, um pouco a contra gosto, o exagero de quilos. E não param de ir. Continuam. Frenéticos esses meninos. Esvaem-se. Como também esvaíram-se todos os meus sentimentos em sangue, as minhas angústias em carne, a minha tristeza em lágrimas e a minha alma ao vento, e a seu tempo, antiga, velha e suja, tanto foi que a joguei na lixeira do vizinho anteontem. Não sou mais pele, Severino, vaza. Acho que nasci de novo.

Aceite essa condição com a minha mais pura lealdade.
Encontramo-nos lá em cima, certo?

Com os meus sinceros agradecimentos.
Até breve.