terça-feira, 9 de outubro de 2012

Até onde vai a nossa capacidade de morrer?


Tenho vivido dias vazios. Vazios de mim mesmo e vazios também de uma vontade de viver muito presente em um passado pouco distante, mas que não consigo alcançar por agora. Permito-me então uma pausa para imergir-me um pouco mais nesse sopro inconsolável e intocável que reside em meu peito. A história de Cecília mexeu muito comigo. Comigo e com diversos próximos. Pelas circunstâncias violentas, cruéis e covardes, pela proximidade, pelos diversos amigos em comum, pelo momento político extremamente delicado que vivemos, pela bandeira que ela estava levantando árdua e lealmente por uma política de paz e comunicação não-violenta rumo a um outro e novo mundo, ou ainda pela simples semelhança a um sem-número de casos que assistimos de camarote diariamente na tevê e nos jornais. Pergunto-me, então: onde é que vamos parar?

Há exatos nove anos, passei por situação semelhante e os sujeitos que mantiveram a arma por vinte minutos na minha cabeça tinham as mesmas características frágeis e vertiginosas daqueles descritos na história de Cecília. Foi a primeira vez em que eu morri vivendo e foi muito difícil nascer de novo depois. Provavelmente muitos próximos já passaram por isso e também teriam histórias para contar. O detalhe é que apenas estamos aqui hoje porque ainda não fomos sorteados nessa roleta-russa interminável. O sofrimento não se mede, a dor não se compara. Mas o fato é que não merecemos jamais situações próximas à dos familiares de Cecília, à do filho que fica, à dos sem-número casos que vemos por aí ou à minha própria situação de nove anos atrás. Que mundo estamos construindo? Até onde vai a nossa capacidade de nos matarmos? Até onde vai a nossa capacidade de aceitarmos com que uma política que privilegia poucos e induz à discrepância entre as classes seja preponderante em relação à condição humana? Somos humanos, ora, e somos todos iguais! Vem-me à cabeça imediatamente o texto que fiz ontem, pois a gestão pública de momento e o caso de Cecília estão intima e quase que umbilicalmente ligados. Mais amor, por favor, e mais respeito no mundo também. Se não nós, jovens, quem? Para tudo que eu quero descer...

Imagino ainda, por hora, o que tenha levado os sujeitos a chegarem ao extremo no caso de Cecília. Imagino o quanto devem ter sofrido. Imagino a falta de educação e de condições básicas de sobrevivência. Imagino a incompletude da vida para eles. O que não imagino e nunca conseguiria imaginar é como estão os familiares de Cecília por agora. Não consigo. E não, naturalmente não há de se tirar a culpa dos bandidos. Mas, cá entre nós: quem são os bandidos? Há de se alimentar novamente a discussão – afinal, agora temos mais quatro anos pela frente – em torno da segurança pública, em torno das políticas públicas para o povo, em torno do que é, afinal, viver em sociedade. Onde fica o respeito ao próximo? Confesso ter dúvidas, por agora, e confesso que esse vazio em mim tem prevalecido sobre quaisquer outros pensamentos. Tolerância!

Nesse fim de semana foi-se Cecília, que eu não conhecia pessoalmente, mas que tinha muitos amigos em comum. Poderia ser qualquer um de nós em seu lugar, não tenho dúvidas. Por coincidência ou por destino, estávamos no dia das eleições. Tendo a ficar com a segunda opção. O fato é que pegou-me brutalmente a reflexão sobre esse mundo em que vivemos, sobre a sociedade que estamos construindo, sobre a importância de escolhermos em quem votar, sobre a importância de sermos políticos, literalmente, e sobre buscarmos uma política mais genuína, efetiva e com P maiúsculo. Eu andei muito no meio, e meio é equilíbrio demais, é vida de menos. Quem me conhece sabe do que eu estou falando. Talvez eu esteja gritando tarde, mas antes tarde do que nunca. É preciso lutar por um mundo melhor, é preciso amar o ser humano que mora na porta ao lado, é preciso ter coração, dignidade e, sobretudo, é preciso estar vivo para o enfrentamento. Mas tenho morrido um pouco a cada segundo só de pensar no que virá no próximo, e depois no outro, e assim em diante. A morte de Cecília é também a morte de um grande pedaço de uma juventude autoral e lúdica que pensa com os pés no chão, que sonha com propostas inovadoras para o bem coletivo, que ocupa incansável o seu espaço e os espaços públicos de uma maneira saudável e poética, que resiste à opressão e ao sistema falho como é hoje e que tem esperança e acredita em um mundo melhor para os nossos filhos e para os nossos netos, acima de tudo. Ser é diferente de ter e é apenas disso que estamos falando. Viver, respirar, abraçar, sorrir sem culpa. Amar. Espero que tudo mude, e espero que seja breve, e que sejamos um só num caminho mais sereno, límpido e suave daqui em diante. Pois, como li em um post ontem, o nome disso "não é luto, é luta". Que continuemos, então. Afinal, até onde vai a nossa capacidade de morrer?

domingo, 7 de outubro de 2012

Para o mundo que eu quero descer!


Antes de mais nada, eu não topo nada com você. Que saiba logo. Afinal, você quer rodar comigo porque acha que sabe em quem eu voto. Você me ignora porque acha que o pessoal que anda comigo não é da sua turma. Você tem medo de mim porque sabe que eu sou o seu oposto. Você me persegue e fala mal de mim porque acha que eu quero te derrubar. Você coloca adesivos duvidosos em seu carro e acha que isso passaria batido por mim ou que talvez eu fosse idiota o suficiente para aceitar-te e dar-te as minhas mãos. Não sou da tua laia. Percebe que eu nunca entreguei-lhe um sorriso sequer? Percebe que eu nunca ri das tuas piadas escrotas e de mau gosto? Você não usa vermelho. Você não veste laranja. Você não tem cor, é cinza, é do tipo que come quieto pelas beiradas com as suas patas meticulosas, com os seus gestos friamente calculados e maltrata o sujeito humano sem pensar duas vezes. Você não está aí para quem está ao seu redor. Você tratora a tudo e a todos. Você faz movimentos ocultos para chegar ao poder. Você é interlocutor com o diabo. Você é cruel. Você é o meu avesso e eu não preciso-o para me entender. Para existir. Para resistir. Prefiro à minha maneira. Prefiro a minha maneira. A minha e a dos meus pares. Você é tão besta que até hoje não sabe quem sou eu, mesmo que eu já tenha lhe dado dicas o suficiente para facilitar as suas investidas. Você me suporta, mas não eu a você. Você me admira e no fundo queria ser como eu, decente, mas a você não, a você não devo uma singela palavra de agradecimento ou respeito ou cumplicidade. Você não conhece quem anda comigo. Você não conhece gente. Você não é gente! A você, meu caro ilustre maligno e desconhecido, apenas o meu pesar e o comentário mais desgostoso que eu poderia soltar-lhe: aqui não. Não hoje, não amanhã e talvez nunca mais, quem sabe em breve.

Você é sanguessuga por poder. Você é anti-cultura, é anti-povo, é anti-gente. Você, sendo como é, é tudo que eu jamais sonhei, pensei ou planejei em ter lado a lado algum dia. Você não tem a menor ideia de quem eu seja ou do que eu seja capaz e repetir não custa nada. Eu não te quero perto de mim, pois você, sendo você e sendo o avesso daquilo que quero para o meu mundo, para esse mundo onde vivem pessoas, sobretudo, me faz mais eu: leal, justo e digno aos meus pares. Eu tenho amigos, e você? Alivia-me saber que as pessoas como você duram pouco onde estão. O tempo passa, sabe? Reconfortam-me as suas palavras tortas e esse seu jeito sem-jeito semi-diabólico porque nem isso você é capaz de ser, pois não tramite a mim e àqueles sujeitos estranhos que andam comigo nenhuma ideia ou proposta com propriedade de quem é um cidadão ou de quem apenas aceita viver num mundo de gente igual. Me deixa feliz por não saber nada disso. Você é tolo. Você não é fino, elegante e nem sincero. Você é do mau. Você é do mau. Vo-cê-é-do-mau! Eu tenho um carro vermelho, eu adoro suco de laranja, eu parei de torcer para o cruzeiro, eu pulei carnaval de sunga pelas ruas da nossa cidade e eu sou gente, sobretudo, e sou de bem. Você não cabe aqui do meu lado porque eu só ando com gente de bem, sabe? E eu procuro por gente de bem. E talvez por isso, também, você seja incapaz em entender-me em minha plenitude ou aceitar esse meu jeito descolado, justo e vivo de ser. Bem.

Você se derrete por mim e me quer ao teu lado porque não é capaz de interagir com gente. Com a gente. Com gente como a gente. Você precisa de mim e de gente como eu. Mas não mais, não por agora. Tem vezes que chego a pensar: qual é a educação que tu dá para os teus filhos? Que o menino do sinal é bandido? Que o moço do saco vai roubá-lo? Que andar de ônibus é perigoso? Que a mocinha que mora na favela é bandida ou mulher de traficante? Que só pobre estuda em escola pública? Que os pobrezinhos do bairro não podem jogar bola na mesma rua que eles? Que só se frequenta bares em lourdes, que só se anda a pé no mangabeiras e que amigo legal é aquele que se faz no minas tênis? Que preto é pobre? Que gay é demo? Que é feio se posicionar? Para o mundo que eu quero descer!!! Nesse seu mundo eu não vivo, não me pertente, o meu lugar não é do teu lado, jamais, não é onde eu quero estar. Hoje a revolta me pegou e ninguém me segura, mesmo que talvez seja tarde. Não suporto violência gerada pelo (des)funcionamento público, não suporto mediocridade pela falta de educação, não suporto a imposição na ausência de política genuína, efetiva e com P maiúsculo. Só é consciente quem vota em quem cuida de gente. Só é gente quem gosta de gente. E você, cara pálida, não é nada disso. E simples assim. O meu peito está vermelho de tanto sangrento e os olhos esbugalhados por justiça e paz. Mais amor, por favor, e mais respeito no mundo também. Vou atrás, então, e convocando todos os meus melhores nessa procissão que um dia há de gritar: dignidade! Se não nós, quem? Para o mundo que eu quero descer...

sábado, 15 de setembro de 2012

Da série micro-contos (3)


Eu estava sentado embaixo da marquise porque era uma tarde chuvosa. Acendi um cigarro e ela também. Percebi-a arrumando as mexas de seu cabelo devido ao forte vento daquele dia e mesmo bela parecia-me no entanto estar triste por algo que talvez eu fosse incapaz de compreender. Permanecemos silenciosos, muito embora inquietos, eu em uma mesa a sós e ela na mesa ao lado da minha, eu observando-a e ela observando a mim. Retomei a escrita e pedi um expresso duplo, pois precisava recuperar-me da insônia da noite anterior, enquanto ela deliciava-se com um delicado e colorido milk-shake de frutas vermelhas. Eu escrevia poesias nesta tarde, não sei por que, pois eu nunca costumo escrever poesias, e desde o momento em que me assentei embaixo da marquise devido à chuva fina que caía tive a sensação de que a moça da mesa ao lado era estrangeira, assim como eu, e que era também escritora.

Usava um all-star surrado vermelho, um cachecol amarelo e tinha uma flor entrelaçada em seus cabelos. Olhava ao nada, como se buscasse inspiração, olhava ao redor todo florido, olhou a mim rapidamente e sorriu um sorriso desses que só se vê nos filmes ou nas novelas e que não era para mim, eu sabia, retirou o bloco reciclado da bolsa e começou a escrever e então fui eu quem sorri, maroto, como se confirmasse a hipótese de segundos antes: a moça era escritora. Curioso e entusiasmado, não entendia muito bem o que estava sentindo e muito menos o que se passava na cabeça da moça da mesa ao lado, pedi um licor de chocolate para prolongar a minha estada e passei de súbito a sentir-me um pouco mais útil do que como andava me achando em meus dias, como se parte de sua inspiração, e isso me deixou ligeiramente excitado e levemente feliz. Frenético, eu é que fiquei inspirado com a moça da mesa ao lado e então voltei a escrever. Inspiração recíproca, talvez, aceitei-a de prontidão e palavras me saíam como nunca, palavras lhe saíam como eu nunca tinha visto, era um momento bonito de se ver desses que poderiam acontecer todos os dias em qualquer esquina de qualquer canto estranho do mundo, mas acontecia ali, e acontecia comigo e com a moça da mesa ao lado, com a gente meio que querendo se conhecer, pensava ensaiando em como talvez pudesse ser a abordagem, mas de repente ela fechou o bloco reciclado, colocou-o novamente em sua bolsa e se levantou como se decidida a partir, parecia-me apressada, e saiu então caminhando a passos largos.

Desconsertado, pedi então o tradicional parfait de manga daquele café daquela praça semi-abandonada próxima à estação quarenta e sete do metrô, pois apenas o doce talvez fosse capaz de fazer-me segurar a onda porque a inspiração esvaía-se aos poucos e porque a sensação de não mais vê-la, amarga, também começava a se entranhar por todo o meu corpo. Decidi-me então por partir também e quando prestes a pedir a conta e já acenando ao garçom ela retorna do nada, a moça da mesa ao lado, e senta-se de novo a escrever. Olha-me com certa timidez e um ar singelo desses que eu não estou acostumado, percebo de imediato, e pede um licor também. Sorri, de novo, e acendi mais um cigarro como se aliviado pela volta da moça da mesa ao lado. Era como se estivéssemos a sós e o mundo parado, mas era uma rua movimentada e os carros passavam, e os andantes também, e o frio que eu não estou acostumado corroía-me a costela e todo o resto do meu corpo, mas aceitei-o categoricamente decidido a permanecer silenciosamente onde estava embaixo da marquise escondido da chuva fina que ainda caía.

Minutos depois, uma amiga chegou e sentou-se junto a ela. Cumprimentaram-se e começaram uma conversa dessas que poderiam durar uma vida e pediu um café ao garçom enquanto ambas me olhavam como se papeando sobre mim e eu como se estivesse muito longe mesmo sentado na mesa ao lado não conseguia ouvi-las de modo algum, o que me deixou bastante ansioso. Acendi mais um marlboro vermelho trazido de longe cujo estoque já estava acabando e a moça da mesa ao lado que depois de alguns minutos já parecia-me menos entretida no papo acendeu um cigarro galaxy desses que não se vende mais no Brasil, talvez sua saída repentina tivesse sido para comprá-los. Parou de escrever, inquieta, acho que a presença da amiga que não parava de falar tirava-lhe o foco ou eu mesmo tirava-o, não conseguia decifrá-la, e me olhou novamente de forma mais direta dessa vez, agora como se quisesse me dizer algo, me falar algo, me chamar ou me convidar para sentar ao seu lado na mesa ao lado, talvez, era como se quisesse revelar-me o incômodo pela visita inesperada da amiga que não parava de falar e não deixava-nos mais a sós ou a sua inquietude em retomar a escrita sobre mim ou algo que eu ainda fosse incapaz de entender, talvez sobre a gente ou sobre a sua escrita ou sobre a sua aparente timidez ou quem sabe sobre o encontro inesperado e silencioso no café daquela praça semi-abandonada perto da estação quarenta e sete de metrô naquela tarde chuvosa de terça-feira que poderia ser uma tardes comum dessas quaisquer.

Eu não sabia sequer o seu nome, tampouco tinha a visto antes ou ela a mim, mas eu sabia dela, ela sabia de mim, sabíamos um do outro e sabíamos também que talvez jamais tivéssemos nova oportunidade de nos revermos ou conversamos ou de apenas trocarmos olhares e nos inspirarmos, quem sabe, e eu até ensaiei iniciar algum tipo de interação com ela, e acho que ela comigo, mas as circunstâncias não permitiram-nos e eu também não sabia muito bem por onde começar, pois além de muito tímido eu também estava precisando entregar-me à minha escrita e então empenhado dei o último trago no cigarro e apaguei-o para seguir adiante, só que a ponta do lápis tinha quebrado e eu sem pensar nesta possibilidade havia deixado todos os lápis-reservas no quarto do hotel. Sorri com um alívio estranho, pedi a conta, levantei-me e comecei a caminhar sem me permitir lançar sequer um olhar para trás, fui em direção ao Cerro San Cristóbal porque já estava prestes a fechar e aquele era o último dia da viagem, achei que talvez ela pudesse entender e achei também que talvez fosse apenas mais um desses contos desencantados e desencontrados e que pudesse ter acabado por ali.

Subi toda a ladeira do parque em um desses funiculares coloridos e velhos que parecem que vão se despencar a qualquer instante ou em todos os instantes, na verdade, e já lá do alto do Cerro, alguns minutos depois e praticamente entregue a uma escrita mais sóbria e triste, já não saíam-me poesias como pouco antes ao mesmo passo em que a chuva fina parava de cair e o sol reaparecia bonito e imponente com os Andes de fundo, brilhante e vistoso, eu consegui localizar o café daquela praça semi-abandonada próxima à estação quarenta e sete do metrô de Santiago e com certa dificuldade consegui avistar também a moça da mesa ao lado que usava all-star surrado vermelho, cachecol amarelo e flor nos cabelos junto à sua amiga acenando ao garçom para que pudessem pagar a conta. Parecendo-me inquieta, ainda, e com um galaxy em uma das mãos, entregou o dinheiro ao garçom com a sua outra mão dispensando o troco e saiu caminhando já sozinha em direção oposta à da amiga que parecia-me caminhar rumo à estação quarenta e sete do metrô. Olhei o relógio, então, já era quase cinco e faltava muito pouco para que a entrada do parque fechasse, mas talvez fosse tempo ainda de subir o Cerro em um dos últimos desses funiculares coloridos e velhos que parecem que vão se despencar a qualquer instante.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

faltam-me cores, contudo...


o dia está lindo e eu devia mesmo era querer trabalhar, paquerar, protestar, passear, ir à praia ou ao clube, quem sabe uma praça porque estamos em época de ocupação e de amplas discussões, vençamos, vejo muitos amigos alaranjados por aí e outros já mais estranhos que outrora amarelando-se, que me entendam, enquanto eu ao contrário sinto-me ainda verde em meio a tudo isso precisando amadurecer-me. vejo um verde-cinza meio que sem cor quando olho ao espelho e talvez seja a pior das sensações que eu pudesse ter por agora ou a melhor, pois quem sabe não funcione como um último gatilho. mas por hora, e talvez também por isso, isso de metade que eu digo, essa falsa liberdade que transcorre-me pelos olhos dos outros, pelos atos dos outros, tenho comigo apenas a escolha do meu edredom escuro mesmo sabendo que eu possa suar em demasia ou arder em fogos por enquanto artificiais tamanha é a chama nesse meu peito tímido, calado e escondido querendo se explodir, e talvez eu pague esse preço, mas sabendo-me também que esse edredom ao contrário talvez revele-se frágil e límpido como se despertador alegre ou como se nuvem desfazendo-se ou como se sorvete derretendo-se ou até mesmo belo como se me cobrisse com flores lindas e cheirosas, margaridas, bromélias, camélias e rosas muito coloridas confortando-me então. e nesta possibilidade iminente eu me sentiria um pouco mais leve, e livre, e solto, e querido, mesmo ciente ainda que esse lugar onde decidi enterrar-me por agora estagnado possa ser bastante diferente do que eu imaginava, nem um e nem outro, nem ao céu e nem ao mar, e me bastariam agora apenas o céu ou o mar, mas jamais esse clima mediano que impregna as minhas roupas já sujas com esse veneno cruel de alguns ímpares que se acham pares, ignorantes que são, porque a minha vontade era desprover-me por completo dessa blindagem de uma vez por todas e encará-lo de frente, o mundo como está hoje, triste, sombrio e confuso, e poder enfim levantar bandeiras e brincar de ser feliz. seria bom, e portanto lamento já exausto do tanto pensar que mesmo sendo uma escolha exclusivamente minha ainda resida em mim certo receio, um medo que corre intermitente em minhas veias e impede-me abrir de súbito as janelas da vida e deparar-me de peito cheio e olhos esbugalhados e sangrentos com as dúvidas tão cruéis que me rondeiam sobre decidir-me sóbrio por partir, ou fugir, ou ficar tentando-me diferente. contudo escolhas seriam bem-vindas, mesmo que dilacerantes, pois talvez não fossem certeiras de imediato, mas de que importa tudo isso e todos esses questionamentos inseguros e arrogantes se permitiram-me, ao menos e de imediato, respirar um pouco mais, voltar a sorrir, a brincar, a pular, a berrar, a colocar camisas de cores mais vivas e diferentes e a sentir-me vivo e meu, sobretudo, então por que não arriscar, cara pálida?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Que volte, então...


E que assim seja, então, porque o tempo exigiu-se impor inquieto e soberano por agora, mas que volte um dia, quem sabe, e que volte mais madura como Caio F. sugeriu-me muito bem outro dia, que volte mais sábia também, inteira e não menos envolvida como a milésimos de segundos atrás em que eu a percebia entregue à gente, embrenhou-se comigo nesse novo e nosso-só-nosso mundo descoberto outrora, que volte com todas as suas margaridas amarelas, e as tulipas, e os seus sorrisos deslumbrantes, que volte com o tênis vermelho e surrado esquecido aqui em casa num dia desses de chuva em que ficou encharcado, que volte a fazer um pouco mais sorridentes esses meus dias sombrios que ficaram um pouco mais esquisitos desde o dia em que recebi aquela primeira carta, era como se um aviso, era como se um quase, era como se um não, pois era preciso libertar-se de si, e ainda é, e ainda não deu, estimo, mas que volte depois, então, e que eu volte também, pois ando precisando também, estimo, e espero que consigamos realmente nos encontrar lá na frente, e que volte com todos os seus telefonemas despretensiosos no meio da tarde, e com o seu senso de humor sem igual, que volte com músicas como aquelas que trocávamos escondidos por mensagens, que volte com poesias e com todos os defeitos que carrega consigo, pois são muitos e não por isso pouco belos ou menos seus, pois são todinhos seus e não arriscaria-me a pedir algo diferente por nada nesse mundo, não por hora ou talvez para sempre, não sei, e que volte mais bonita, que volte mais precisa, que volte mais livre, leve e solta, que volte mais fina, elegante e sincera, que volte com mais estripulias e rebeldias, que volte com todas as rugas e com todas as cicatrizes que a vida lhe impôs, pois são muitas, que volte também com aquela vontade de viver que revelou-me quando nos reconhecemos, que volte pequena também, por que não?, e que volte com carinhos, com massagens, mensagens, delicadezas e afins, com todos os ins e com todos os ãos e assim em diante, e que seja doce e longa essa tua estrada, pois será, mas que seja reveladora e que seja triste também, mas reconfortante, e que seja plena mesmo faltando-te algo ainda lá no fim do túnel onde mesmo sem saber talvez eu esteja à tua espera, ou não, pois nunca saberemos, e que sejam teus esses dias, todos eles, sobretudo, mas que volte uma hora sim, como fazem as rodas-gigantes, as cirandas, as quadrilhas ou os carrosséis, quem sabe, pois o amor talvez saiba esperar, pois talvez saibamos também, e se não soubermos de prontidão como a encomenda poderia exigir-nos talvez tenhamos de fazê-lo novamente, e tentaremos sem sombra de dúvidas mesmo sendo dois, ou mesmo que seja depois, e mesmo que disso tudo fique apenas uma vontade de mais, pois ficará, como ficará também permanente e intacto esse desejo de que haja um dia, enfim, um novo tempo de recomeçar.