...
não viam-se há anos, mas a mulher movimentava-se sem repúdios ao encontro do
rapaz como se nada lhes tivesse ocorrido e ele, um pouco em desencontro à sua
fala mansa ao gosto amargo do espumante, recolhia-se inerte à cadeira
desconfortável que obrigara a assentar-se ao lado de sua mãe. não acreditava, ou
simplesmente não permitia-se acreditar à saudade dilacerada em seu
guarda-roupa, mas ensaiava dizer o amor à sua maneira tímida de encarar as
tolices do tempo, mesmo inábil às pernas que já não se moviam, porque afinal a
admirava tanto quanto os belos poemas do Leminski que sempre lia aos alunos nas
incansáveis tardes de estudo.
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
domingo, 31 de março de 2013
o que havia de lhe dizer
andavas
a procurar o amor e acabei por encontrá-lo onde menos podia esperar por agora.
estava guardadinho bem ali, junto ao peito. e ei de entregar-lhe, então, todas
as palavras que não puderam de ser ditas antes. e hão de ser genuinamente
belas. e sinceras. e todas tuas.
a estranha sala de espera
hoje eu acordei um
pouco surdo por não entender um pouco cego por não enxergar um milímetro sequer
adiante e um pouco maldito por não conseguir lembrar-me da noite passada eu
acordei com o livro da Clarice em cima do peito eu não sonhei tampouco recordo
como ou quando peguei no sono enquanto assistia l’amour e talvez por isso eu estivesse
sentindo-me do avesso a observar as paredes vermelhas do quarto o lençol de
muitos fios ainda amassado em ausência e as flores esquecidas no andar de
baixo tomei todos os meus remédios entrei no banho estava frio muito frio dilacerava-me
a ventarola que jorrava o vento estúpido usei todos os cremes esfoliantes à
espera de algo escaldante subiram-se vapores quentes que deixavam-me excitado
ao meu próprio toque mas desisti porque a saudade bateu e
fui correndo para o telefone assentei-me ao sofá florido da sala acendi um cigarro observando
os quadros falsos rachados na parede em silêncio zelado não atendeu achei estranho que isto pudesse
ocorrer-me ao domingo vão não havia o que fazer sentia-me grogue e sem forças havia algo de muito estapafúrdio que me convidava a
desistir da palavra doce das sílabas não entregues e então despedi-me de mim mesmo já era quase meio-dia eu queria vazar-me inóspito em minhas próprias mãos mas
eu não tinha governo algum sobre isto escolhi o tênis vermelho surrado e uma blusa
amarela descolada mas acho que no fundo eu iria apenas
ao outro lado da rua e talvez voltasse com um sorriso qualquer no rosto a saudade batia forte e talvez
insegura em pequenas lágrimas que enchiam-me os olhos e depois de enfrentá-la enfiei
todas as angústias e as velhas manias na bolsa de couro velho acendi outro
cigarro de filtro vermelho à procura do então e quando prestes a sair o telefone tocou
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
outro sonho
nesta
noite, fui eu quem sonhou contigo. estávamos num show do Caetano, mas o show
não era do Caetano. não sei bem qual era a cidade. acho que talvez o
Rio, porque a gente adora o Rio, porque a gente ainda vai junto pro Rio. parecia-me a Bethânia, ou alguém muito parecido
com a Bethânia?, e a música estava absurdamente alta. muito alta!. a sós, fugimos para comer um creme à beira-mar. estranhamente verde, muito embora delicioso. era tipo de abacate. e eu sempre soube que você não gostava de abacate, e por isso era estranho também ter de tentar compreendê-la, mas a gente meio que se lambuzou muito à tigela encontrada e depois
entrou na água. olhava-te aos olhos, nus e belos como a margarida ao terreiro de mãe pela manhã, e você aos meus. a praia estava vazia ao
breu da quase madrugada e não havia muitas ondas de modo que os corpos já não
estranhos pudessem se tocar lentamente. tocava-me o sexo, tocava-te a alma. ardia-nos a urgência do infalível tato, do inevitável sentido à espreita. pele límpida em desejo vivo. éramos-nos como se jamais pudéssemos ter sido antes. e depois voltamos ao show, encharcados e
demasiadamente leves vestidos em branco-neve como a parede do teu quarto, e
dessa vez era você quem estava no palco no lugar da Bethânia, bonita, muito bonita, e estava também ao meu lado a dar-me
suave as mãos macias a te vermos cantar. havia silêncio à volta, sim, mesmo
impossível, e também um grito inerte ao peito que pedia-se livre. não me lembro muito
do que veio depois, permita-me em licença, alguns sonhos costumam ter disso. mas sei que consegui entregar-te todas as
flores no caminho de volta ao camarim. não eram muitas, talvez vermelhas, mas eram tuas. tuas!. e você nesta hora, como
se desviando o olhar um pouco sem jeito em meio à multidão a mirar-se destemida aos meus lábios à espera do beijo que não pôde de ser entregue antes do sonho,
bom, você apenas sorriu...
domingo, 6 de janeiro de 2013
dar-te-ei todas elas, enfim...
e
então que não já há mais a folga da ausência encontrada ao campo. e há de haver
algum dia?. das vísceras?. e assim torno-me à rotina estreme ao domingo vão de
céu azul e poucas nuvens à janela ao canto do quarto vazio. os tragos
acabaram-se, os muitos que me acompanhavam à ausência interrompida, e as cartas
em despedida no estranho jogo de palavras soltas ao ano que esvai não puderam
de lhe ser entregues porque não havia sinal. e havia de ter?. não recebi as
respostas, também. e havia algo ainda de ser dito?. encontrei-as inertes junto
ao corpo vazio. todas elas. estavam lá bem ao peito!. há um livro a entregar-te
também à espera no tempo, ao ano que corre, ao conto que conto. e assim
dar-te-ei novamente um dia todas as palavras, então. e hão de ser tuas?. torno-me
hoje ao silêncio em rotina, sim!, não chora mais o céu as lágrimas de outrora.
e entregar-te-ei junto aos sonhos, enfim, todas as flores no jardim do fundo à
tua espera. e é-se então uma despedida?.
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