quinta-feira, 25 de abril de 2013

o tempo de sentir


o tempo de sentir o meu corpo o teu corpo o teu beijo no meu é agora e agora estamos juntos e o nosso para sempre e para o todo hoje e sempre é portanto agora também e nesse agora nosso para sempre far-te-ei cheia de beijos carinhos respiros suspiros chamegos olhares e que a recíproca seja verdadeira porque te ter ao meu lado com a tua mão sobre a minha em qualquer hora do dia que conseguimos nos propor é algo que não havia planejado e se não fosse assim não havia então de ser tão bonito poético gostoso o nosso gozo junto ao encontro dos teus olhos e o teu toque singelo à minha nuca arranhando-me estreme o teu beijo doce grudado ao meu mas tinha de ser e é

quarta-feira, 24 de abril de 2013

fragmentos de um quase conto

... não viam-se há anos, mas a mulher movimentava-se sem repúdios ao encontro do rapaz como se nada lhes tivesse ocorrido e ele, um pouco em desencontro à sua fala mansa ao gosto amargo do espumante, recolhia-se inerte à cadeira desconfortável que obrigara a assentar-se ao lado de sua mãe. não acreditava, ou simplesmente não permitia-se acreditar à saudade dilacerada em seu guarda-roupa, mas ensaiava dizer o amor à sua maneira tímida de encarar as tolices do tempo, mesmo inábil às pernas que já não se moviam, porque afinal a admirava tanto quanto os belos poemas do Leminski que sempre lia aos alunos nas incansáveis tardes de estudo.

domingo, 31 de março de 2013

o que havia de lhe dizer


andavas a procurar o amor e acabei por encontrá-lo onde menos podia esperar por agora. estava guardadinho bem ali, junto ao peito. e ei de entregar-lhe, então, todas as palavras que não puderam de ser ditas antes. e hão de ser genuinamente belas. e sinceras. e todas tuas.

a estranha sala de espera

hoje eu acordei um pouco surdo por não entender um pouco cego por não enxergar um milímetro sequer adiante e um pouco maldito por não conseguir lembrar-me da noite passada eu acordei com o livro da Clarice em cima do peito eu não sonhei tampouco recordo como ou quando peguei no sono enquanto assistia l’amour e talvez por isso eu estivesse sentindo-me do avesso a observar as paredes vermelhas do quarto o lençol de muitos fios ainda amassado em ausência e as flores esquecidas no andar de baixo tomei todos os meus remédios entrei no banho estava frio muito frio dilacerava-me a ventarola que jorrava o vento estúpido usei todos os cremes esfoliantes à espera de algo escaldante subiram-se vapores quentes que deixavam-me excitado ao meu próprio toque mas desisti porque a saudade bateu e fui correndo para o telefone assentei-me ao sofá florido da sala acendi um cigarro observando os quadros falsos rachados na parede em silêncio zelado não atendeu achei estranho que isto pudesse ocorrer-me ao domingo vão não havia o que fazer sentia-me grogue e sem forças havia algo de muito estapafúrdio que me convidava a desistir da palavra doce das sílabas não entregues e então despedi-me de mim mesmo já era quase meio-dia eu queria vazar-me inóspito em minhas próprias mãos mas eu não tinha governo algum sobre isto escolhi o tênis vermelho surrado e uma blusa amarela descolada mas acho que no fundo eu iria apenas ao outro lado da rua e talvez voltasse com um sorriso qualquer no rosto a saudade batia forte e talvez insegura em pequenas lágrimas que enchiam-me os olhos e depois de enfrentá-la enfiei todas as angústias e as velhas manias na bolsa de couro velho acendi outro cigarro de filtro vermelho à procura do então e quando prestes a sair o telefone tocou

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

outro sonho

nesta noite, fui eu quem sonhou contigo. estávamos num show do Caetano, mas o show não era do Caetano. não sei bem qual era a cidade. acho que talvez o Rio, porque a gente adora o Rio, porque a gente ainda vai junto pro Rio. parecia-me a Bethânia, ou alguém muito parecido com a Bethânia?, e a música estava absurdamente alta. muito alta!. a sós, fugimos para comer um creme à beira-mar. estranhamente verde, muito embora delicioso. era tipo de abacate. e eu sempre soube que você não gostava de abacate, e por isso era estranho também ter de tentar compreendê-la, mas a gente meio que se lambuzou muito à tigela encontrada e depois entrou na água. olhava-te aos olhos, nus e belos como a margarida ao terreiro de mãe pela manhã, e você aos meus. a praia estava vazia ao breu da quase madrugada e não havia muitas ondas de modo que os corpos já não estranhos pudessem se tocar lentamente. tocava-me o sexo, tocava-te a alma. ardia-nos a urgência do infalível tato, do inevitável sentido à espreita. pele límpida em desejo vivo. éramos-nos como se jamais pudéssemos ter sido antes. e depois voltamos ao show, encharcados e demasiadamente leves vestidos em branco-neve como a parede do teu quarto, e dessa vez era você quem estava no palco no lugar da Bethânia, bonita, muito bonita, e estava também ao meu lado a dar-me suave as mãos macias a te vermos cantar. havia silêncio à volta, sim, mesmo impossível, e também um grito inerte ao peito que pedia-se livre. não me lembro muito do que veio depois, permita-me em licença, alguns sonhos costumam ter disso. mas sei que consegui entregar-te todas as flores no caminho de volta ao camarim. não eram muitas, talvez vermelhas, mas eram tuas. tuas!. e você nesta hora, como se desviando o olhar um pouco sem jeito em meio à multidão a mirar-se destemida aos meus lábios à espera do beijo que não pôde de ser entregue antes do sonho, bom, você apenas sorriu...