terça-feira, 5 de novembro de 2013

um silêncio bom

algumas coisas podem ser escritas no todo, outras tantas não. palavras que entalam no peito viram poesia leve. em Verona, a minha primeira cidade na velha bota, a comunicação é até fácil. mas há um silêncio enorme e gritante em algum lugar do meu corpo que me pede mais calmo e sereno do que em outros pontos da caminhada. os cheiros e os sabores me parecem muito familiares, não sei, talvez as cores ou o tempo bom, algo que faça com que a solidão não me agrida tanto. ao menos não como antes. os lápis e os papeis que me acompanham todos os dias, aqui parecem ter uma função mais clara. servem-me a observar atento a cidade pacata acontecendo. há muitos turistas por todos os cantos, em supremacia chinesa, e outros tantos casais em busca de uma benção qualquer de Julieta, que somente existiu em texto. mas é estranho, muito estranho, porque Julieta parece estar em toda a cidade ao mesmo tempo, nas varandas floridas, nos cafés tumultuados e nos bancos vazios das praças, sensação que torna encanto o meu silêncio rompido. os casais apaixonados não me deixam triste, tampouco os sanfoneiros sorridentes de todas as esquinas ou a mensagem "the taste of love", onipresente nas banquinhas de jornal e nos lambe-lambes vizinhos ao hotel. ao contrário. fazem florescer o que talvez houvesse de mais bonito até agora e que eu ainda estava por encontrar. um jeito estranho de ser, mais próprio e menos sagaz, que sustente a ideia de continuar, em qualquer que seja o caminho.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

amanhã faz um mês que estou viajando...

amanhã faz um mês que estou viajando. saí do Brasil no dia 24 de setembro e já passei por Londres, Paris, Rennes, Amsterdã e agora estou amando a vida em Berlim, ou ao menos me desconectando um pouco dela, porque isso também é amor. viajar sozinho é um tanto quanto maluco. é bom e ruim, é quente e frio, é de tudo um pouco ao mesmo tempo e sempre um dia após o outro. já viajei sozinho antes, mas não com tantos desafios quanto agora. desafios a que me propus, naturalmente, porque seria até relativamente fácil se fosse uma viagem exclusivamente turística dessas onde a gente se vira em redes de fast-food, visita apenas as principais atrações das cidades e se carrega de um monte de compras e fotos para depois mostrar para os amigos.

amanhã faz um mês que estou viajando e, nessa viagem, até pretendo contar algo para os meus amigos. mas, talvez queira escolher algo sobre os cheiros, os sabores, os instantes, o acaso, o inesperado, algo sobre os encontros no meio da rua ou em uma esquina qualquer. porque a gente se vira, se conversa, desconversa e se estrepa. já lavei roupas em algumas línguas, vou tentar cortar cabelo dia desses, já encontrei novos amigos, fiz outros que duraram apenas um dia, descobri amigos de amigos em Amsterdã e até encontrei ex-colega de trabalho nas ruas de Berlim. tem sido tudo lindo e maravilhoso, a não ser a solidão que às vezes me assombra. e é justo ela a que vim enfrentar, tentar me ser um pouco mais, descobrir onde estou ou talvez aonde eu tenha de ir ainda em algum momento dessa caminhada. o livro que estava escrevendo está paralisado, por hora, mas outro novo e mais potente vem que surge e me toma fugaz. e então eu ando, ando, ando. e depois escrevo, escrevo, escrevo. deliro com o inesperado que surge ao redor, choro com histórias tristes e outros momentos integrantes dessa quase história.

amanhã faz um mês que estou viajando e não tenho menor ideia de quanto isso vai durar. ainda estou me procurando nas esquinas, nos gringos que olham torto na rua ou às vezes nem olham, na descoberta sobre como sobreviver em outras línguas e me virar em um inglês pouco prático que tenho desenvolvido. daqui, tenho mais saudades de momentos do que de pessoas. saudades de jogar conversa fora em boteco, de poder desabafar em português, de conseguir escolher precisamente aquilo que se vai comer, de saber mais sobre os caminhos, de coisas como jogar xadrez em tabuleiro ou compartilhar alguns sonhos inalcançáveis. tive saudades estranhas nesta noite, que não caberiam ao texto, e por isso resolvi escrever. daqui, vou indo ao meu encontro, como havia de ser, mas ainda um pouco distante de algo palpável a que possa alcançar. e ei de? sabe-se lá, talvez. sou apenas uma formiguinha no mundo e a gente não devia se dar tanta importância assim. o desapego também é moral.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

o primeiro dia de viagem

na verdade, tudo começou há algum tempo. acho que foi há uns dois anos, um pouco menos ou mais. no fundo, acho que começou quando eu me comecei, quando me vim ao mundo. todos nascem para o mundo, afinal, como hoje me arrisco capaz de afirmar. essa viagem começou no dia 23 de maio de 2011. era aniversário da minha avó, os seus 80, e não, a escolha não foi por celebração à ela, com a licença permitida. decidi me celebrar naquela data. alguns vêm e vão, outros vêm e ficam, mas depois se vão, e quem fica mesmo, no final das contas, é a gente mesmo e olhe lá. redundante fosse, ou clichê, se não fosse assim tão hoje, real em vida, presente instante.

essa viagem começou quando eu a desejei, quando eu comecei a planejar algum dinheiro para que pudesse me confortar à escolha, começou no dia em que me separei, quando perdi alguns quilos, algumas roupas e alguns amigos, quando me distanciei dos meus melhores amigos quando estava apaixonado, quando estive em depressão, quando tomei coragem e me desliguei do emprego de salário bom ou quando reclinei diante de novas propostas deliciosas e tentadoras, começou no dia em que pisei pela primeira vez em Paris e chorei sozinho, quando fui à Nova York e não queria voltar, em todas as vezes que fui à São Paulo e me sentia vivo como aquele poema do Leminsky, quando pisei na Lapa e agradeci de joelhos por estar voltando pra casa, começou nas vezes em que estive na Ilha de Boipeba e na primeira vez que pisei na Serra do Cipó, mesmo há dez anos a algumas horinhas dela, tão bela e logo ali. começou quando fui à Praia da Estação pela primeira vez, quando o carnaval voltou, quando voltei à minha cidade natal e não podia mais chamá-la de minha, quando recebi a notícia que um amigo morava em Londres e outro em Lisboa, que outro esteve de licença da vida por tempo determinado, que um outro iria se casar em breve, que alguns estavam grávidos, quando comecei a namorar, quando em todas as vezes que fui, fui, fui, mas que depois me vim.

hoje o texto não é literário, pois o processo em si já é poesia pura. vou viajar o mundo, ou ao menos uma parte dele. prometi-me que não houvesse roteiros fixos, mas apenas desejos e motivações, que não houvesse produção ou reservas, mas apenas uma passagem de ida, que houvesse apenas uma mochila nas costas, alguns cigarros, muitos papeis e canetas, uma câmera fotográfica, algumas poucas roupas, um protetor solar, um repelente, uma toalha de microfibra que cabe no bolso, descobri outro dia, um chapéu e uma ceroula para que não morra de frio, meia dúzia de badulaques quaisquer e alguns cartões-postais não sei de onde para enviar com um sopro de vida aos meus queridos mais próximos. vou sem muitas promessas, sem muitos desejos aparentes, vou para encerrar algum tipo de gestalt, como uma amiga frisou outro dia, e me encontrar lá na frente, quem sabe. ando precisado de mim. ando precisado de ir. e acho até que já escrevi de tudo um pouco sobre isso, mas nada que se materializasse como esse agora me permite, então.

a viagem recomeçou ontem, quando tomei todas as vacinas obrigatórias. recomeçou na semana passada, quando decidi que iria visitar a minha prima-irmã na França e só de lá decidir o resto. recomeçou há pouco mais de um mês com as manifestações, com a ocupação da câmara, com as estranhezas de sempre do poder público e com a retirada de campo à força do tesão com algumas poucas coisas que ainda me faziam muito bem ou pelo menos me enganavam e me alimentavam. recomeçou quando hoje, pela manhã, acordei e tinha chegado uma revista baranguinha que insisto em assinar, mas que ao menos uma vez me fez muito sentido ao trazer em sua capa uma terra que nutro um desejo muito grande de visitar sob a chancela “seja feliz com 50 dólares por dia”. recomeçou quando uma amiga me mandou o link de um retiro budista, quando uma menina próxima morreu de tiro, com o debate da velha mídia com alguns dos meus pares, quando liguei para a minha mãe em uma pré-despedida, quando contei à namorada e aos amigos mais próximos. recomeçou outro dia, pois já não estou mais aqui, mesmo que doa, e quando recebi a cotação da passagem apenas de ida e ela coube no meu bolso. e os meus sonhos também.

terça-feira, 2 de julho de 2013

embora sim

embora, sim
não
insurge a lua?
talvez

não era abismo,
tampouco fundo
era o teu peito,
à beira-mar

e podes, sim
disse outro dia
abri-me pois,
nós dois

o amor, então
o ar preenche
à revelia,
ou à razão

queira ou possas 
não poupe aos dois,
faça-te sim,
ou então depois

em dose certa,
em posse asserta
em peito esmero,
em flor sincera

os olhos escusos,
não
outrossim, 
livrai o não!

permita-te em tom
em ecos, 
nas mãos
uns versos não vãos,

permita-te, enfim
em mim, assim
e vem além.
e vem agora.

depois também.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

delicadeza

sussurrava o vento coincidente.
silenciosos e em química,
encontramo-nos neste setembro.
é primavera!
e houve o toque.
a pele.
houve o impávido e suave acaso à porta,
o inesperado presente.
instantes.
o inevitável desejo à espreita:
revelação.
sentido antigo que esvai, sinto.
sentido antigo que esvai, vai...

existem flores do lado de lá,
talvez existam de cá também.
eu em busca de mim e da leveza impalpável,
ao encontro do meu corpo.
tu em busca de ti e da tua verdadeira face,
dos teus verdadeiros gestos,
do teu mais sincero e estúpido gozo.
límpido!
quero-te em pitadas. quero-te limpa. quero-te tua. 
queira-me como podes, ou como queres, ou como podes querer-me. 
nu.
queiramo-nos como pudermos ser: 
leves.

não há urgência. mas há sinais.
o corpo fala, diz muito.
tem vezes grita.
urra! _________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!
queira-me em silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa muito,
não me prometa nada,
mas lhe prometo vida.

apenas venha fresta e olha-me nos olhos,
beije-me o teu beijo vermelho, a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas, então,
como tocam o céu as andorinhas,
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma,
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso:
livres.

sinta-se no instante, deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
despeça-se viva e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás por lá também.

sintamos os sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do lado de cá,
uma rosa do lado de lá:
papeis em branco a preencher.
deixe impor-se tácito o tempo
no tempo, no tempo,
relógio-tempo.
e seja como for mesmo no breu do presente:
__________, nova!

escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca vermelha, o teu ventre vermelho.
escorra-me toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!, goza-me!,
goza-me todo!
todo!
delicadeza!
limpa-te e goza-me o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a pressa de sermos,
ou de tocarmos as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos.

chamemo-nos suave acaso, ao acaso, e sejamos então.
e enfim.
a urgência mata.
mata.
mata.
goza-me inteiro, 
e por agora.
______________!
dois pontos:

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Poesia contemplada pelo Concurso Nacional Novos Poetas (Prêmio Sarau Brasil 2013).
A versão original já havia sido publicada neste blog, no final de 2012.