algumas coisas podem ser escritas no todo, outras
tantas não. palavras que entalam no peito viram poesia leve. em Verona, a minha
primeira cidade na velha bota, a comunicação é até fácil. mas há
um silêncio enorme e gritante em algum lugar do meu corpo que me pede mais
calmo e sereno do que em outros pontos da caminhada. os cheiros e os sabores me parecem muito familiares, não sei, talvez as cores ou o tempo bom, algo que
faça com que a solidão não me agrida tanto. ao menos não como antes. os lápis e
os papeis que me acompanham todos os dias, aqui parecem ter uma função mais
clara. servem-me a observar atento a cidade pacata acontecendo. há muitos turistas por todos os cantos, em supremacia chinesa, e outros tantos casais em
busca de uma benção qualquer de Julieta, que somente existiu em texto. mas é estranho, muito estranho, porque Julieta parece estar em toda a cidade ao mesmo tempo, nas
varandas floridas, nos cafés tumultuados e nos bancos vazios das praças, sensação que torna encanto o meu silêncio
rompido. os casais apaixonados não me deixam triste, tampouco os sanfoneiros
sorridentes de todas as esquinas ou a mensagem "the taste of love", onipresente nas banquinhas de jornal e nos lambe-lambes vizinhos ao hotel. ao contrário. fazem florescer o que talvez
houvesse de mais bonito até agora e que eu ainda estava por encontrar. um
jeito estranho de ser, mais próprio e menos sagaz, que sustente a ideia de continuar, em qualquer que seja o caminho.
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
amanhã faz um mês que estou viajando...
amanhã faz um mês que estou viajando. saí do Brasil
no dia 24 de setembro e já passei por Londres, Paris, Rennes, Amsterdã e agora
estou amando a vida em Berlim, ou ao menos me desconectando um pouco dela, porque
isso também é amor. viajar sozinho é um tanto quanto maluco. é bom e ruim, é
quente e frio, é de tudo um pouco ao mesmo tempo e sempre um dia após o outro. já
viajei sozinho antes, mas não com tantos desafios quanto agora. desafios a que
me propus, naturalmente, porque seria até relativamente fácil se fosse uma
viagem exclusivamente turística dessas onde a gente se vira em redes de fast-food,
visita apenas as principais atrações das cidades e se carrega de um
monte de compras e fotos para depois mostrar para os amigos.
amanhã faz um mês que estou viajando e, nessa viagem,
até pretendo contar algo para os meus amigos. mas, talvez queira escolher algo sobre os cheiros, os
sabores, os instantes, o acaso, o inesperado, algo sobre os encontros no
meio da rua ou em uma esquina qualquer. porque a gente se vira, se conversa, desconversa e se
estrepa. já lavei roupas em algumas línguas, vou tentar cortar cabelo dia desses, já encontrei novos amigos, fiz
outros que duraram apenas um dia, descobri amigos de amigos em Amsterdã e até
encontrei ex-colega de trabalho nas ruas de Berlim. tem sido tudo lindo e
maravilhoso, a não ser a solidão que às vezes me assombra. e é justo ela a que vim
enfrentar, tentar me ser um pouco mais, descobrir onde estou ou talvez aonde eu tenha de ir ainda em algum momento dessa caminhada. o livro que estava
escrevendo está paralisado, por hora, mas outro novo e mais potente vem que surge e me
toma fugaz. e então eu ando, ando, ando. e depois escrevo, escrevo, escrevo. deliro
com o inesperado que surge ao redor, choro com histórias tristes e outros
momentos integrantes dessa quase história.
amanhã faz um mês que estou viajando e não tenho
menor ideia de quanto isso vai durar. ainda estou me procurando nas esquinas,
nos gringos que olham torto na rua ou às vezes nem olham, na descoberta sobre
como sobreviver em outras línguas e me virar em um inglês pouco prático que
tenho desenvolvido. daqui, tenho mais saudades de momentos do que de pessoas. saudades
de jogar conversa fora em boteco, de poder desabafar em português, de conseguir
escolher precisamente aquilo que se vai comer, de saber mais sobre os caminhos, de coisas como jogar xadrez em tabuleiro ou compartilhar alguns sonhos inalcançáveis. tive
saudades estranhas nesta noite, que não caberiam ao texto, e por isso resolvi
escrever. daqui, vou indo ao meu encontro, como havia de ser, mas ainda um
pouco distante de algo palpável a que possa alcançar. e ei de? sabe-se lá, talvez. sou
apenas uma formiguinha no mundo e a gente não devia se dar tanta importância
assim. o desapego também é moral.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
o primeiro dia de viagem
na
verdade, tudo começou há algum tempo. acho que foi há uns dois anos, um pouco menos ou mais. no fundo, acho que começou quando eu me comecei, quando me vim
ao mundo. todos nascem para o mundo, afinal, como hoje me arrisco capaz de afirmar. essa
viagem começou no dia 23 de maio de 2011. era aniversário da minha avó, os seus
80, e não, a escolha não foi por celebração à ela, com a licença permitida. decidi me celebrar
naquela data. alguns vêm e vão, outros vêm e ficam, mas depois se vão, e quem
fica mesmo, no final das contas, é a gente mesmo e olhe lá. redundante fosse, ou
clichê, se não fosse assim tão hoje, real em vida, presente instante.
essa
viagem começou quando eu a desejei, quando eu comecei a planejar algum dinheiro
para que pudesse me confortar à escolha, começou no dia em que me separei, quando
perdi alguns quilos, algumas roupas e alguns amigos, quando me distanciei dos
meus melhores amigos quando estava apaixonado, quando estive em depressão, quando
tomei coragem e me desliguei do emprego de salário bom ou quando reclinei diante
de novas propostas deliciosas e tentadoras, começou no dia em que pisei pela
primeira vez em Paris e chorei sozinho, quando fui à Nova York e não queria
voltar, em todas as vezes que fui à São Paulo e me sentia vivo como aquele
poema do Leminsky, quando pisei na Lapa e agradeci de joelhos por estar
voltando pra casa, começou nas vezes em que estive na Ilha de Boipeba e na
primeira vez que pisei na Serra do Cipó, mesmo há dez anos a algumas horinhas
dela, tão bela e logo ali. começou quando fui à Praia da Estação pela primeira
vez, quando o carnaval voltou, quando voltei à minha cidade natal e não podia
mais chamá-la de minha, quando recebi a notícia que um amigo morava em Londres
e outro em Lisboa, que outro esteve de licença da vida por tempo determinado,
que um outro iria se casar em breve, que alguns estavam grávidos, quando
comecei a namorar, quando em todas as vezes que fui, fui, fui, mas que depois
me vim.
hoje
o texto não é literário, pois o processo em si já é poesia pura. vou viajar o
mundo, ou ao menos uma parte dele. prometi-me que não houvesse roteiros fixos, mas
apenas desejos e motivações, que não houvesse produção ou reservas, mas apenas
uma passagem de ida, que houvesse apenas uma mochila nas costas, alguns
cigarros, muitos papeis e canetas, uma câmera fotográfica, algumas poucas roupas,
um protetor solar, um repelente, uma toalha de microfibra que cabe no bolso, descobri
outro dia, um chapéu e uma ceroula para que não morra de frio, meia dúzia de
badulaques quaisquer e alguns cartões-postais não sei de onde para enviar com
um sopro de vida aos meus queridos mais próximos. vou sem muitas promessas, sem muitos
desejos aparentes, vou para encerrar algum tipo de gestalt, como uma amiga
frisou outro dia, e me encontrar lá na frente, quem sabe. ando precisado de mim.
ando precisado de ir. e acho até que já escrevi de tudo um pouco sobre isso,
mas nada que se materializasse como esse agora me permite, então.
a
viagem recomeçou ontem, quando tomei todas as vacinas obrigatórias. recomeçou
na semana passada, quando decidi que iria visitar a minha prima-irmã na França
e só de lá decidir o resto. recomeçou há pouco mais de um mês com as
manifestações, com a ocupação da câmara, com as estranhezas de sempre do poder
público e com a retirada de campo à força do tesão com algumas poucas
coisas que ainda me faziam muito bem ou pelo menos me enganavam e me
alimentavam. recomeçou quando hoje, pela manhã, acordei e tinha chegado uma
revista baranguinha que insisto em assinar, mas que ao menos uma vez me fez
muito sentido ao trazer em sua capa uma terra que nutro um desejo muito grande
de visitar sob a chancela “seja feliz com 50 dólares por dia”. recomeçou quando
uma amiga me mandou o link de um retiro budista, quando uma menina próxima
morreu de tiro, com o debate da velha mídia com alguns dos meus pares, quando
liguei para a minha mãe em uma pré-despedida, quando contei à namorada e aos
amigos mais próximos. recomeçou outro dia, pois já não estou mais aqui, mesmo
que doa, e quando recebi a cotação da passagem apenas de ida e ela coube no meu
bolso. e os meus sonhos também.
terça-feira, 2 de julho de 2013
embora sim
embora,
sim
não
insurge
a lua?
talvez
não
era abismo,
tampouco
fundo
era
o teu peito,
à
beira-mar
e
podes, sim
disse
outro dia
abri-me
pois,
nós
dois
o
amor, então
o
ar preenche
à
revelia,
ou
à razão
queira ou possas
não poupe aos dois,
faça-te
sim,
ou então depois
em
dose certa,
em posse asserta
em peito esmero,
em flor sincera
os
olhos escusos,
não
outrossim,
livrai
o não!
permita-te em
tom
em
ecos,
nas
mãos
uns
versos não
vãos,
permita-te,
enfim
em mim, assim
e
vem além.
e
vem agora.
depois também.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
delicadeza
sussurrava o
vento coincidente.
silenciosos e
em química,
encontramo-nos
neste setembro.
é primavera!
e houve o
toque.
a pele.
houve o
impávido e suave acaso à porta,
o inesperado
presente.
instantes.
o inevitável
desejo à espreita:
revelação.
sentido antigo
que esvai, sinto.
sentido antigo
que esvai, vai...
existem flores
do lado de lá,
talvez existam
de cá também.
eu em busca de
mim e da leveza impalpável,
ao encontro do
meu corpo.
tu em busca de
ti e da tua verdadeira face,
dos teus
verdadeiros gestos,
do teu mais
sincero e estúpido gozo.
límpido!
quero-te em
pitadas. quero-te limpa. quero-te tua.
queira-me como
podes, ou como queres, ou como podes querer-me.
nu.
queiramo-nos
como pudermos ser:
leves.
não há
urgência. mas há sinais.
o corpo fala,
diz muito.
tem vezes
grita.
urra!
_________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!
queira-me em
silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa
muito,
não me prometa
nada,
mas lhe
prometo vida.
apenas venha fresta e olha-me nos olhos,
beije-me o teu beijo vermelho, a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas, então,
como tocam o céu as andorinhas,
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma,
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso:
livres.
sinta-se no instante, deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o
tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em
teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu
beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca
vermelha,
os teus lindos
lábios vermelhos.
despeça-se
viva e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás
por lá também.
sintamos os
sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do
lado de cá,
uma rosa do
lado de lá:
papeis em
branco a preencher.
deixe impor-se
tácito o tempo
no tempo, no
tempo,
relógio-tempo.
e seja como
for mesmo no breu do presente:
__________,
nova!
escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca
vermelha, o teu ventre vermelho.
escorra-me
toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!,
goza-me!,
goza-me todo!
todo!
delicadeza!
limpa-te e
goza-me o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a
pressa de sermos,
ou de tocarmos
as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos
sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos.
chamemo-nos
suave acaso, ao acaso, e sejamos então.
e enfim.
a urgência
mata.
mata.
mata.
goza-me
inteiro,
e por agora.
______________!
dois pontos:
---
Poesia contemplada pelo Concurso Nacional Novos Poetas (Prêmio Sarau Brasil 2013).
A versão original já havia sido publicada neste blog, no final de 2012.
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