tem vezes que não escrevo o que penso
o que quero, tanto
o não dizer:
G-R-I-T-A!!!
tem vezes que prefiro morrer, mesmo aos poucos
dilacerado
é hora de me salvar de mim: o ano novo já vem
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
sábado, 20 de dezembro de 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
a festa do adeus
há alguns anos, decidi mudar a minha vida. pedi demissão de um emprego bom, realizei projetos que me deram mais tesão, fiz novos amigos, me desfiz de outros, decidi viajar. enfiei alguns sonhos na mala e vim. nessa viagem, já dei banho em elefante, ensinei inglês para monges no Laos, ganhei algumas tatuagens, aprendi culinária balinesa, usei sarong e joguei xadrez em indonésio, dormi sob uma coberta de estrelas no deserto, fui passado para trás no Camboja, peguei protestos em Istambul e um golpe militar na Tailândia, passei um mês numa ilha paradisíaca depois de um acidente quase horrível de moto. tento me comunicar em um inglês mais ou menos y hablo un portuñol terrível, falo algumas palavras em tailandês, khmer, laossiano, balinês, híndi e até arranho um tim-tim em sueco, alemão ou francês.
no começo, eu talvez pensasse apenas em largar tudo por um tempo, romper com o primeiro ciclo de vida. lá se vão onze meses, quatorze países. e, quando eu comecei a ficar um pouco cansado de templos, museus e lugares, quando já não dava mais conta de apenas contemplar, decidi estacionar na Índia. e foi ali em Rishikesh, logo ali na beira do Ganges, que conheci pessoas fundamentais à minha caminhada e acabei me conhecendo um pouco mais, também. lembrei que tinha um sonho guardado no cantinho de alguma gaveta esquecida na estrada, tirei o rascunho da bolsa e vomitei. dispensei as maiúsculas e escrevi quase todos os contos em primeira pessoa. eu disse adeus.
e agora que venha a festa, um novo ciclo ou o que tiver de vir. é o fim do começo ou o começo do fim, é o encerramento de um processo duro e doce, de uma entrega vermelha ou amarela demais pro meu gosto, a quarta linha no meu braço esquerdo. é o fim de uma etapa ou de outra vida, é passagem e é também uma vinda, como diria o bom mestre Cartola. é o que me faz seguir.
são onze textos para serem lidos em poucas horas. são onze passagens sobre a urgência dos relacionamentos do nosso tempo. são onze vidas ou onze mortes. são onze festas ou onze adeus. são onze motivos estúpidos para serem jogados ao fundo do armário. são onze narrativas inúteis que falam muito de mim, de você, de todos nós. são onze contos que querem dizer o amor à sua maneira, mas que também não dizem nada.
lançar essa "festa do adeus" me deixa muito feliz. e não apenas pelo livro em si, mas porque aqui inicio também a lenta caminhada de volta pra casa. da viagem, vem outro livro depois, das histórias que estou vivendo por aqui. volto para casa em breve, e longe de estar pleno ou esnobe, mas devorado por uma ansiedade em entender o que se apresenta depois do depois do adeus.
domingo, 8 de dezembro de 2013
23 quase bobagens ou constatações clichês sobre os meus primeiros 70 dias de viagem
- Andar de tuk-tuk em Londres pode ser uma
experiência incrível
- Os chineses roncam muito, os ingleses roncam
muito, os americanos bêbados roncam muito, todos os homens bêbados roncam
muito
- Algumas mulheres podem ser piores companheiras
de quarto do que os americanos bêbados, mesmo quando roncam
- Os suíços tomam banho muito rápido
- Os chineses quase não tomam
- Dormir em euro é caro, sem dúvida, mas é mais barato do que dormir com americanos bêbados que roncam e chineses que não tomam banho
- Sair pelado do banheiro, dormir pelado, fazer qualquer coisa pelado desde que você esteja pelado, enfim, pode ser uma coisa muito importante
- Na Itália, é um garçom para pedir comida, um
para pedir bebida e um outro para pedir a conta
- Na França, é praticamente impossível comer e
beber no mesmo lugar
- Na Holanda, você come, bebe, fuma, pede a conta, bebe, come, come, bebe mais um pouco, pede a conta, perde a conta, a conta, o rumo, tá tudo certo
- Sempre vai haver um indiano tentando te vender
flores ou objetos que voam, em qualquer lugar que seja
- Brasileiros não gostam muito de brasileiros,
até a primeira cerveja
- A maioria dos americanos e dos alemães não acha, eles
têm certeza que são os melhores do mundo
- Existem americanos legais, muitos!, principalmente aqueles que vivem em Nova York, trabalham com cinema ou fotografia e morem no Brooklyn
- Existem alemães legais, desde que vivam em Berlim, são os únicos que consegui conversar
- Os espanhóis jogam futebol, os italianos adoram
futebol, os franceses respiram futebol, os alemães vivem futebol, os
ingleses amam futebol, ninguém gosta do Neymar
- Todos deviam dirigir na Toscana, ao menos uma
vez na vida
- Todos adoram e se surpreendem com a minha viagem, mas quase ninguém tem tempo para conversar porque sempre têm
que partir no dia seguinte
- Tem muitos estudantes brasileiros no “Ciência
sem Fronteiras”, com bolsa do Governo Federal, mas a maioria deles é contra
a atual política de Estado, contra o bolsa-família, a favor da Copa do
Mundo e acha a Europa mais limpinha que o Brasil
- Na Itália, tem muitas igrejas e monumentos, mas
eles gostam mesmo é de sorvete
- Em Berlim, dizem que tem muita droga todos os
dias, não pára, mas droga mesmo é não ter Berlim todos os dias por perto
- Sentar num buteco para tomar cerveja de chinelo, bermuda e com os melhores amigos, sobretudo em Santa Tereza, ainda é o melhor programa do mundo
- Deixar-se perder no caminho ao menos uma vez, em qualquer situação que seja, não tem preço: você pode acabar encontrando o dia mais legal da sua vida
e antes que você discorde, proteste ou queira jogar pedra em mim, lembre-se que esta é a minha visão, é a minha viagem e este é o meu blog =)
terça-feira, 5 de novembro de 2013
um silêncio bom
algumas coisas podem ser escritas no todo, outras
tantas não. palavras que entalam no peito viram poesia leve. em Verona, a minha
primeira cidade na velha bota, a comunicação é até fácil. mas há
um silêncio enorme e gritante em algum lugar do meu corpo que me pede mais
calmo e sereno do que em outros pontos da caminhada. os cheiros e os sabores me parecem muito familiares, não sei, talvez as cores ou o tempo bom, algo que
faça com que a solidão não me agrida tanto. ao menos não como antes. os lápis e
os papeis que me acompanham todos os dias, aqui parecem ter uma função mais
clara. servem-me a observar atento a cidade pacata acontecendo. há muitos turistas por todos os cantos, em supremacia chinesa, e outros tantos casais em
busca de uma benção qualquer de Julieta, que somente existiu em texto. mas é estranho, muito estranho, porque Julieta parece estar em toda a cidade ao mesmo tempo, nas
varandas floridas, nos cafés tumultuados e nos bancos vazios das praças, sensação que torna encanto o meu silêncio
rompido. os casais apaixonados não me deixam triste, tampouco os sanfoneiros
sorridentes de todas as esquinas ou a mensagem "the taste of love", onipresente nas banquinhas de jornal e nos lambe-lambes vizinhos ao hotel. ao contrário. fazem florescer o que talvez
houvesse de mais bonito até agora e que eu ainda estava por encontrar. um
jeito estranho de ser, mais próprio e menos sagaz, que sustente a ideia de continuar, em qualquer que seja o caminho.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
amanhã faz um mês que estou viajando...
amanhã faz um mês que estou viajando. saí do Brasil
no dia 24 de setembro e já passei por Londres, Paris, Rennes, Amsterdã e agora
estou amando a vida em Berlim, ou ao menos me desconectando um pouco dela, porque
isso também é amor. viajar sozinho é um tanto quanto maluco. é bom e ruim, é
quente e frio, é de tudo um pouco ao mesmo tempo e sempre um dia após o outro. já
viajei sozinho antes, mas não com tantos desafios quanto agora. desafios a que
me propus, naturalmente, porque seria até relativamente fácil se fosse uma
viagem exclusivamente turística dessas onde a gente se vira em redes de fast-food,
visita apenas as principais atrações das cidades e se carrega de um
monte de compras e fotos para depois mostrar para os amigos.
amanhã faz um mês que estou viajando e, nessa viagem,
até pretendo contar algo para os meus amigos. mas, talvez queira escolher algo sobre os cheiros, os
sabores, os instantes, o acaso, o inesperado, algo sobre os encontros no
meio da rua ou em uma esquina qualquer. porque a gente se vira, se conversa, desconversa e se
estrepa. já lavei roupas em algumas línguas, vou tentar cortar cabelo dia desses, já encontrei novos amigos, fiz
outros que duraram apenas um dia, descobri amigos de amigos em Amsterdã e até
encontrei ex-colega de trabalho nas ruas de Berlim. tem sido tudo lindo e
maravilhoso, a não ser a solidão que às vezes me assombra. e é justo ela a que vim
enfrentar, tentar me ser um pouco mais, descobrir onde estou ou talvez aonde eu tenha de ir ainda em algum momento dessa caminhada. o livro que estava
escrevendo está paralisado, por hora, mas outro novo e mais potente vem que surge e me
toma fugaz. e então eu ando, ando, ando. e depois escrevo, escrevo, escrevo. deliro
com o inesperado que surge ao redor, choro com histórias tristes e outros
momentos integrantes dessa quase história.
amanhã faz um mês que estou viajando e não tenho
menor ideia de quanto isso vai durar. ainda estou me procurando nas esquinas,
nos gringos que olham torto na rua ou às vezes nem olham, na descoberta sobre
como sobreviver em outras línguas e me virar em um inglês pouco prático que
tenho desenvolvido. daqui, tenho mais saudades de momentos do que de pessoas. saudades
de jogar conversa fora em boteco, de poder desabafar em português, de conseguir
escolher precisamente aquilo que se vai comer, de saber mais sobre os caminhos, de coisas como jogar xadrez em tabuleiro ou compartilhar alguns sonhos inalcançáveis. tive
saudades estranhas nesta noite, que não caberiam ao texto, e por isso resolvi
escrever. daqui, vou indo ao meu encontro, como havia de ser, mas ainda um
pouco distante de algo palpável a que possa alcançar. e ei de? sabe-se lá, talvez. sou
apenas uma formiguinha no mundo e a gente não devia se dar tanta importância
assim. o desapego também é moral.
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