E que o ano que vem não tenha filtros, não tenha diques, não tenha lama. Que o ano novo não tenha caos, não tenha chatos, mas que tenha amigos e até inimigos, pois é necessário. Que o ano que vem não tenha tralhas, não tenha trapos e que não tenha, suplico, nenhuma vidraça. Porque eu odeio as vidraças. Mas que, tendo, se porventura aparecerem, essas sapecas, que eu veja cores, que eu veja gente, que eu veja tudo. Que eu veja a minha vida em vermelho e amarelo, as minhas preferidas, que eu veja os meus pares do lado de cá e não mais por detrás, que eu veja só reflexos do nada em meio ao tudo, em meio ao antro em que me buscaram, ou que eu veja simples devaneios, que seja, mas que mesmo assim eu consiga perceber que é a vida me chamando, ou o mundo me secando, ou apenas o novo proclamando mais uma de suas sábias profecias. Venha. E que num tiro certeiro, único, de súbito, no primeiro minuto do ano que vem, em meio a foguetórios e festas em todo país, em todos os cantos do mundo, em cada esquina, que eu esteja em mim, comigo, na festa da minha alma, numa celebração só minha, do tipo egoísta, que eu vá ao meu encontro e que eu consiga lançar um último olhar maroto para trás, para o ano que fica, e perceba são, lúcido e, enfim, cada minucioso detalhe do seu derradeiro ato: a vidraça estilhaçada. Fui.
My life, my stuff, my anxieties, my insomnia, my ideas, my desires. Shots of me and from my nonstop mind.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
o ano que vem
não quero comemorar o ano que vem
eu quero é despedir-me arrogantemente do que vai
dilacerante
esse ano que só foi de minúsculas, rugas e licenças
do novo eu quero a incerteza
não quero comemorar o ano que vem
dele quero a incompletude
só o farei quando acabar, quando tiver a certeza de que foi
ao contrário do outro, lancinante
esse ano que ficou, que fincou, explodiu
não quero comemorar o ano que vem
dele quero a rebeldia
só o farei quando estiver sóbrio, jovem, nobre e protagonista
indiferente
esse ano cinzento, cafona e altruísta, um delinquente
não quero comemorar o ano que vem
dele quero despir-me, do agora
vejo tantos querendo o mesmo, ferozmente, livrai-nos desses trapos
e que sejamos viris
esse ano bege, blue, careta, sem muitos anis
não quero comemorar o ano que vem
eu quero é que venha com paz, e não que eu queira demais
sagaz
mas que fique pra trás, e que eu seja voraz, e pra sempre capaz
esse ano que esvai, sem pensar em voltar
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Preciso ir
Preciso ir. Preciso logo. Não aguento mais um minuto aqui nesse lugar.
Preciso ir. Que seja breve. Antes que seja tarde, que não me caiba mais lá.
Preciso ir. Preciso muito. Aqui de espectador, agora, não é onde devo estar.
Preciso ir. Já. Preciso ir pra lá. Também talvez não seja, mas eu prefiro tentar.
sábado, 24 de dezembro de 2011
A minha versão do natal
Não gosto das mensagens de natal. Respeito, claro, mas as acho clichê do tipo copia e cola, muito padrão e meio sem inspiração. São todas iguais. Vale a intenção, adoro recebê-las. Mas muito mais pela lembrança, com a sua licença, não pelo conteúdo. E que me desculpem os plantonistas que insistem em postarem e repostarem mensagens desse tipo nas redes sociais. A minha caixa está cheia já. O que eu gosto mesmo é das dos meus amigos, dos meus melhores. Gosto daquelas mais legítimas, que vêm da alma, que vêm das entranhas, que vêm meio que de supetão em movimentos despretensiosos. Prefiro sempre um simples feliz natal carregado de verdade e singelezas do dia-a-dia, ou um presente inusitado daqueles que a gente encontra na rua meio que sem querer e acaba achando a cara daquele sujeito. E ele adora, e eu adoro assim. E, desses, eu prefiro também presença, prefiro ouvir as vozes, prefiro quebrar as nozes e embebedar-me junto deles, prefiro que saibam que me têm eternamente ao lado, ou por perto, ou até mesmo ao longe. Prefiro então, naturalmente, desejar-lhes muito mais do que um feliz natal com mensagens copiadas e coladas do Drummond, da Clarice ou da Martha, ou daqueles que insistem em fazer re-post de Então é Natal na voz da Simone. Desejo-lhes desapego, para seguir, desejo-lhes conforto, para dormir, desejo-lhes dinheiro, para gastarem tudo, desejo-lhes as melhores drogas, para suportarem, desejo-lhes a minha alma, para se embriagarem, e desejo-lhes por fim vida, sempre, pra sempre, porque assim é que é bonito.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
A tua felicidade
É que a tua felicidade tem a dose certa da maldade
O peso denso da vaidade
O tamanho da miséria
Do ontem que se foi, virou matéria
É que a tua felicidade tem vários dilemas, saídas, partidas
Tem vários momentos, espelhos, retratos
Tem muitas facetas, vontades, verdades
Tem a alma do poeta e de todas as suas metades
É que a tua felicidade é diferente de outrora
Tem muitos aspectos, espectros, dejetos
Tem muito de ti, do novo, da vida
Tem muito pra si, repartir, imergir
Tem muito por vir, viver, seguir
É que a tua felicidade tem o tamanho do teu peito
É só do teu jeito, é novo, mudou
Tem só um momento, ajeita, e vai
Tem só o teu lado, um vaso, uma cor
Um único preço, é caro, é meu
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