quinta-feira, 31 de maio de 2012

Porque é amor...


Por que o amor
Quando amor,
A minha flor
A nossa dor.

Por que o amor
Quando flor,
A minha dor
O nosso amor.

Por que o amor
Quando dor,
O meu amor
A tua flor.

Por que o amor,
Por que a flor,
Por que a dor,
Depois do amor?

Por que o amor?
Por que amor?
Por que, amor?
Porque é amor.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Acho que Neruda não ligaria...


Porque a escrita é livre. E a cópia também. E eu só me dou ao luxo de copiar pouquíssimas coisas, dessas do tipo escolhidas a dedo, sofridas em cada vírgula e tocantes na alma. Coisas que aproprio de súbito, principalmente vindas de quem eu admiro muito, dessa gente vadia e libertina com quem eu naturalmente toparia uma noite dessas do tipo intermináveis, do tipo pra sempre, do tipo a base de muitos tragos, e de muitas risadas, e colorida, e de um romantismo imprevisível ao qual me entrego diariamente com uma máquina de escrever a tiracolo. Essa coisinha aqui é do Neruda, que tenho amado tanto, acho que como o Vinícius, pode ser que sim. Pois ambos me entendem. E me decifram também. Acho que a gente dialoga sem que eles saibam, tem vezes, pois absorvo cada ato, e cada gesto, e cada gole, e cada morte, e cada vida, são várias, e mesmo à distância no tempo, e mesmo em minha insignificante existência aqui de baixo, inalcançável, e mesmo sabendo que não, que talvez nunca haja encontro. Tanto é que outro dia resolvi aceitar meio que a contra-gosto e coloquei-me no meu verdadeiro posto, no único que tenho direito, permitindo-me apenas que essa foto aí do lado, tirada numa dessas intermináveis, de tanta inveja fosse direto para a parede da minha casa casa para que eu pudesse, enfim, alimentar o meu ego ferido, e deprimido, e então chamá-los de meus amigos, de poetinhas, de camaradas, e chamá-la de minha, a foto, por que não, e a poesia também.

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido. 

domingo, 27 de maio de 2012

sabático


há muito venho detectando alguns sinais em meu corpo, não chegam a cicatrizes, mas marcam-me, é hora de parar, talvez, cuidar um pouco mais de mim, fazer um novo corte no cabelo, os poucos fios que tenho, comprar roupas mais coloridas, chicletes, algodões-doces, aprender a fotografar, ler novos livros, ver outros filmes mais belos, andar em marcha ré, acelerar, esquiar na neve, viajar de balão, tomar um café em Paris e sorvetes de vida em um quarteirão qualquer de Amsterdã, escalar montanhas, as mais altas, desenjaular-me dos dias, dos frios, sobretudo, experimentar bebidas novas, coisas novas, comidinhas exóticas, o novo, e escrever também porque é preciso, entender-me um pouco mais, recolocar-me em órbita, aceitar-me de uma maneira um pouco mais singela e leve da que me percebo ante ao espelho quando acordo em dias como hoje. o redor caminha bem, é verdade, e o trabalho também, e me deixa até satisfeito, projetos e convites não faltam, propostas, mas sinto-me infeliz na mesma medida em que tudo parece tão bem, há um vazio intocável e que precisa ser preenchido, e prestes está, mas indecifrável também. à minha volta, detecto, há um misto de luz e esperança, uma fumaça de paz, uma coisa suave de sentir, sensação estranha, porque não caibo mais em mim, e já tentei diversas vezes, forças não me faltam, e nem faltarão, mas sinto ainda que poderia muito mais do que como ando entregando-me aos meus dias gélidos que andam. quem sabe então um sabático, por hora, não seja o que eu precise, algo assim que ressignifique a alma, que revitalize esses dias sombrios e reorganize a calma, a minha, ansioso que sou, porque o problema não está em ficar ou partir, antes fosse, em ir embora ou abandonar tudo e começar do zero, de novo, em carne trêmula como a de um novato, ingrato, relapso e coadjuvante como ando, mas em reconduzir-me a mim, encontrar-me, sentir-me esbelto e recondicionar-me no agora,  no meu agora, no tempo recolocar-me, quem sabe, pois é preciso, pois é possível, pois angustiado estou no lugar comum do qual me ausento às vezes e aqui, entendendo-me como eu mereço, ou como estimo merecer um dia, já não dá mais.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ando não querendo saber...


Ando não querendo saber muito de você, e de como andam os seus dias, e as suas frieiras, e as suas feridas, e os seus calos, se você ainda dá as suas corridinhas ou não, serelepe que era, se viajou nas férias, se ainda gosta de sorvete de chocolate, ou se agora é de doce de leite, ando fugindo-me dessa procura, da tua ausência, não quero ver-te ou ouvir-te, cansado estou de suas investidas intencionalmente escancaradas em fazer-me não distante da dor, e das suas histórias, e das suas estripulias, e das suas novas companhias, e dos seus antigos amigos também, não me interessa saber como será que anda esse teu jeito cafona de amar, de me fazer sorrir, pois ensinou-me bem, ou a sua fé de que um dia seríamos um só, juntos, até velhinhos, e que eu morreria antes que você sequer pensasse em partir ou que eu pensasse em redimir-me de mim, tanto teu que eu fui um dia.

Ando não querendo saber muito de você, mas não sai de mim onipresente que é, e dói, e então te encontro na rua, no clube, na padaria, nas viagens, nas músicas, nos livros, nos discos, nas calçadas, e na escrita também, não sai de mim porque não quer, vadia, é a maneira que escolheu de controlar-me à distância, posto que cômoda é a maneira de fazer-me eterno amante, seu, mesmo de cá, distante, nosso e do nosso amor jogado na lixeira da esquina da tua casa outro dia, mas não dá pra ser assim, não consigo, é mais forte que eu, carrego-te comigo em todas as pontes e em todas as feridas mal cicatrizadas, esteve comigo em Roma, em Paris, na Bahia, em Betim, em Berlim quando encontrei o Neruda também, fumamos muito, e tomamos uísque nas mesmas mesas que até hoje preparo para os nossos amigos imaginários, e quando tomo Malbec você também está presente em taça vazia, louco que fiquei depois que foi-se, e quando fumo na janela do trabalho observando os carros passarem também é difícil, pois tu estarás comigo por muito tempo ainda, pois desisti-me de mim e de tentar mudar tudo isso assim de uma hora pra outra, o trajeto da história, a própria história, eu, você, não luto mais com algo inestimável, contra algo muito maior do que a gente, do que a vida, do que o próprio amor, pois o amor, ah! o amor, uma vez amor sempre amor.

Ando não querendo saber muito de você e às vezes consigo, mas tem vezes que não, e então procuro no teu blog ou na tua rede social preferida, remexo nas gavetas largadas e mal resolvidas, encardidas, acho cartas e rebusco-me na alma, tolo que sou, escrevo, transcrevo, vou naquela pracinha antiga em que nos conhecemos e fico sozinho olhando as árvores por horas, e as folhas, e as crianças, e o moço da sanfona, e o do algodão-doce, e as flores também, e olha que nem estão mais tão bonitas como no mês passado, fico triste às vezes, mas a primavera está chegando e poderei voltar lá com mais calma, quem sabe, apreciar o outrora, ver a gente meio que de longe, apego-me a isto vez em quando e apeguei-me também, outro dia no metrô, a recordar de uma época em que íamos juntos para a aula, sofrimento que era, mas lindo também, fazíamos com que a estação do Eldorado se transformasse em ponto de partida e de chegada para o momento em que entrelaçávamo-nos em nós mesmos, e nos dávamos as mãos, nos entregávamos e andávamos de mãos dadas tipo namorados, apaixonados que estávamos, bonito que era, e pleno também, e rumávamos em direção a um nada que se revelava tudo pra gente, inteiros era o mínimo pra gente, e pro nosso amor, mas ando não querendo saber muito de você, sabe, assim de longe, e a seu respeito, pois dói no peito, pois dói nas unhas, pois dói na alma, e dá saudades, me dilacera, não quero mais, pobre rapaz, não sou capaz.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Um ano sem mim (e sem pedaços de mim)


Hoje eu completo um ano da minha vida sem mim, mas com vários eus encontrados ao longo dessa intensa saga em busca de algo, dessa busca desencantada e desaforada em certos momentos e à procura de encontrar-me, quem sabe, e encontrar também um caminho mais incerto ainda para que eu pudesse seguir, muito embora florido, pois lindo seria se me deparasse com girassóis e camélias à minha volta em uma estrada no campo dessas quaisquer que podemos imaginar-nos embriagados de vida. Lancei campanhas pelo amor, contra a dor, aceita-a da maneira mais poética e singela possível, lutei e relutei contra mim e contra o tempo, mesmo às vezes não devendo, dei o braço a torcer diante de situações que antes se colocavam como postes em minha frente, pedras no caminho que eram, viajei, inventei de escrever um livro, reiventei-me enquanto eu, criei nove projetos culturais e criei, também, estratégias mirabolantes para esquecer, ou superar, ou aceitar o passado, e até consegui em algumas vezes, muito embora em outras tenha me enfiado embaixo das cobertas da minha alma e escolhido ficar intacto, inoperante e preso inalcançável até que a luz do dia me jogasse para fora da cama porque era preciso seguir.

Hoje eu completo um ano da minha vida sem mim e, desesperado e angustiado que sou, deveras ansioso, devia pegar-me em prantos por agora e apegar-me ao choro, e não apenas pela trajetória natural à qual me embrenhei, mas porque a vida é assim, dura e delicada, e, coincidência ou não, e não menos dilacerante, apenas embrulha tudo em um único pacote do acaso, posto que perco simbolicamente também, nesta data nada querida, uma outra grande parte de mim: aquilo que eu me habituei a chamar carinhosamente por braço direito e perna esquerda, leais que somos, mas que com o passar do tempo preferi chamar de amigo, do peito, pois é o que somos de verdade. Estou falando da minha companheira diária de labuta que decidiu-se por ir, por seguir, por arriscar-se feliz em outro lugar que não o aqui com outro grande amigo que, coincidências à parte, fiz questão de apresentar. Orgulho-me de ser um padrinho natural desse amor, se assim posso me nomear, com a tua licença, pois é o que espontaneamente sou e com muito orgulho. E nem preciso citar nomes, e não citarei, pois quem me conhece sabe muito bem do que eu estou falando.

Hoje eu completo um ano da minha vida sem mim, e agora sem outros pedaços de mim, também, e talvez devesse mesmo revelar-me um pouco impregnado de tristeza, posto que isto se aproxima de um filme de terror tragicômico em meu peito, árduo e ardido que será daqui em diante. Porque a gente sabe da dureza de ser quem a gente é e, adaptáveis que somos, nos preparamos para esses momentos, essa coisa de sermos como a gente estima ser um dia, inteiros, mas pegamo-nos muito menores do que nos vemos em frente ao espelho antes de sair de casa e acabamos por revelando-nos, tem vezes, completamente despreparados e desmotivados para seguir, mas temos de, e nisso criamos alternativas para superarmos as atrocidades que se esbarram em nós ao longo dessa estrada sem fim.

Hoje eu completo um ano da minha vida sem mim, e devia estar pior. Os remédios estão acabando, já comprei novos, e continuo inventando escolhas que antes não se apresentavam a mim como opções. Mas, pelo fato de contraditórios sermos, sinto-me um pouco mais vivo por hora, e torto e flácido também, por que não, mas satisfeito na medida em que vou me desacontecendo de pouco em pouco ao ver pedaços de mim esvaindo-se, fugindo às minhas mãos, mas também por saber onde eu em tese deva procurar forças para o enfrentamento, ou soluções, ou outros fieis escudeiros e até mesmo nos antigos amigos, quem sabe, aqueles que não saíram de férias no ano que se passou, talvez em mim mesmo, pois sei que precisarei formar um time repleto de tentáculos que seja suficientemente belo não apenas para que me faça seguir, fluir, flanar, mas para que me induza até a mim, de novo, lá na frente em um não-lugar que ainda não consigo pegar.

Hoje eu completo um ano da minha vida sem mim e daqui, como lhes disse outrora, vou indo ao meu encontro. E o post de hoje pode até não fazer muito sentido para você, caro leitor, mas saiba que reside em mim uma insignificância tão profunda que chego a considerá-lo um dos mais tocantes e precisos ante à minha fúria, posto que coloca o dedo na ferida mais aberta e ainda não cicatrizada no meu coração, esse que costumo chamar de menor abandonado, e também pelos últimos passos que a vida obrigou-me a dar e que têm me levado a um lugar mais irreconhecível e intocável e distante ainda do que o que eu estava antes que isso tudo começasse. Triste estou. E depressivo também. É como se fosse um fim e um começo simultaneamente intercalados, o acaso é assim mesmo, pois pequeno é o que sou, é como eu me sinto hoje, mas grande o suficiente para encarar tudo isso de uma só vez, e ao mesmo tempo, e agora, porque depois de uma ponte vem outra, e depois outra, e depois outra mais longa, série interminável, mas daqui a pouco não mais, daqui um ano quem sabe, ou dois, talvez, e aí vou te encontrar em uma praça abandonada qualquer, prezado eu, e enfim seremos um só.