domingo, 31 de março de 2013

o que havia de lhe dizer


andavas a procurar o amor e acabei por encontrá-lo onde menos podia esperar por agora. estava guardadinho bem ali, junto ao peito. e ei de entregar-lhe, então, todas as palavras que não puderam de ser ditas antes. e hão de ser genuinamente belas. e sinceras. e todas tuas.

a estranha sala de espera

hoje eu acordei um pouco surdo por não entender um pouco cego por não enxergar um milímetro sequer adiante e um pouco maldito por não conseguir lembrar-me da noite passada eu acordei com o livro da Clarice em cima do peito eu não sonhei tampouco recordo como ou quando peguei no sono enquanto assistia l’amour e talvez por isso eu estivesse sentindo-me do avesso a observar as paredes vermelhas do quarto o lençol de muitos fios ainda amassado em ausência e as flores esquecidas no andar de baixo tomei todos os meus remédios entrei no banho estava frio muito frio dilacerava-me a ventarola que jorrava o vento estúpido usei todos os cremes esfoliantes à espera de algo escaldante subiram-se vapores quentes que deixavam-me excitado ao meu próprio toque mas desisti porque a saudade bateu e fui correndo para o telefone assentei-me ao sofá florido da sala acendi um cigarro observando os quadros falsos rachados na parede em silêncio zelado não atendeu achei estranho que isto pudesse ocorrer-me ao domingo vão não havia o que fazer sentia-me grogue e sem forças havia algo de muito estapafúrdio que me convidava a desistir da palavra doce das sílabas não entregues e então despedi-me de mim mesmo já era quase meio-dia eu queria vazar-me inóspito em minhas próprias mãos mas eu não tinha governo algum sobre isto escolhi o tênis vermelho surrado e uma blusa amarela descolada mas acho que no fundo eu iria apenas ao outro lado da rua e talvez voltasse com um sorriso qualquer no rosto a saudade batia forte e talvez insegura em pequenas lágrimas que enchiam-me os olhos e depois de enfrentá-la enfiei todas as angústias e as velhas manias na bolsa de couro velho acendi outro cigarro de filtro vermelho à procura do então e quando prestes a sair o telefone tocou

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

outro sonho

nesta noite, fui eu quem sonhou contigo. estávamos num show do Caetano, mas o show não era do Caetano. não sei bem qual era a cidade. acho que talvez o Rio, porque a gente adora o Rio, porque a gente ainda vai junto pro Rio. parecia-me a Bethânia, ou alguém muito parecido com a Bethânia?, e a música estava absurdamente alta. muito alta!. a sós, fugimos para comer um creme à beira-mar. estranhamente verde, muito embora delicioso. era tipo de abacate. e eu sempre soube que você não gostava de abacate, e por isso era estranho também ter de tentar compreendê-la, mas a gente meio que se lambuzou muito à tigela encontrada e depois entrou na água. olhava-te aos olhos, nus e belos como a margarida ao terreiro de mãe pela manhã, e você aos meus. a praia estava vazia ao breu da quase madrugada e não havia muitas ondas de modo que os corpos já não estranhos pudessem se tocar lentamente. tocava-me o sexo, tocava-te a alma. ardia-nos a urgência do infalível tato, do inevitável sentido à espreita. pele límpida em desejo vivo. éramos-nos como se jamais pudéssemos ter sido antes. e depois voltamos ao show, encharcados e demasiadamente leves vestidos em branco-neve como a parede do teu quarto, e dessa vez era você quem estava no palco no lugar da Bethânia, bonita, muito bonita, e estava também ao meu lado a dar-me suave as mãos macias a te vermos cantar. havia silêncio à volta, sim, mesmo impossível, e também um grito inerte ao peito que pedia-se livre. não me lembro muito do que veio depois, permita-me em licença, alguns sonhos costumam ter disso. mas sei que consegui entregar-te todas as flores no caminho de volta ao camarim. não eram muitas, talvez vermelhas, mas eram tuas. tuas!. e você nesta hora, como se desviando o olhar um pouco sem jeito em meio à multidão a mirar-se destemida aos meus lábios à espera do beijo que não pôde de ser entregue antes do sonho, bom, você apenas sorriu...

domingo, 6 de janeiro de 2013

dar-te-ei todas elas, enfim...

e então que não já há mais a folga da ausência encontrada ao campo. e há de haver algum dia?. das vísceras?. e assim torno-me à rotina estreme ao domingo vão de céu azul e poucas nuvens à janela ao canto do quarto vazio. os tragos acabaram-se, os muitos que me acompanhavam à ausência interrompida, e as cartas em despedida no estranho jogo de palavras soltas ao ano que esvai não puderam de lhe ser entregues porque não havia sinal. e havia de ter?. não recebi as respostas, também. e havia algo ainda de ser dito?. encontrei-as inertes junto ao corpo vazio. todas elas. estavam lá bem ao peito!. há um livro a entregar-te também à espera no tempo, ao ano que corre, ao conto que conto. e assim dar-te-ei novamente um dia todas as palavras, então. e hão de ser tuas?. torno-me hoje ao silêncio em rotina, sim!, não chora mais o céu as lágrimas de outrora. e entregar-te-ei junto aos sonhos, enfim, todas as flores no jardim do fundo à tua espera. e é-se então uma despedida?.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

pedaço de papel


mudei-me, mudou-se, mudamos juntos. não somos mais o que éramos há tão pouco antes desse verão. muito embora impreciso, esse estranho desejo anunciado no último encontro às cegas na sala antiga de parede vermelha cutuca-me tão belo e agressivo em algum lugar ainda intocável do corpo vazio que não consigo sequer me mover. não encontro-o ou não consigo ainda tocá-lo, mas sinto-o com tanta força. sinto-o tão próximo com muita e tanta força querendo-me invariavelmente seu e ligeiramente entregue à possibilidade do reencontro que ouso-me arriscar capaz de aceitar-me mais pulsante e estupidamente forte à ideia dos delicados e estremes toques até o gozo estúpido que sequer pudemos nos permitir nesse último encontro.

e onde vai dar?, se há de haver reencontro?, se daqui a pouco ou no próximo verão?. pouco importa!, nada importa!, nada ou pouco importa em aceitarmos mesmo tardia a possibilidade do reencontro a gozarmo-nos a alma intacta para que possamos enfim sugar-nos das melindras entranhas a urgência desse hoje impreciso. pois o que fica dessa viagem interrompida, desse conto encontrado em desejo estranho no corpo vazio, é que os dias viraram-se do avesso a imaginar-me pintando-te a aquarela nos seios macios com as novas flores e os novos sabores, e com as novas cores servidas com o gosto límpido das tuas puras verdades desprendidas da vidraça estilhaçada além de mim. e mesmo que não houvesse reencontro por agora, e há de haver algum dia?, guardar-te-ei junto ao peito inerte todas as sílabas sequer pronunciadas e que jamais caberiam-me ao singelo pedaço de papel que dispenso-te hoje junto ao ano que esvai porque amo-te muito mesmo sem saber amar.